"Eu
era uma criança normal. Acreditava em Deus, ia a igreja, me apaixonava
facilmente e tinha muitos amigos. Eu
gostava de praticar esportes e preferia viver correndo e pulando a sentar em
uma cadeira e encarar uma vida virtual por horas. Como num passe de mágica eu
mudei. Li Nietzsche e acabei me tornando ateu e a igreja que eu adorava virou o
palco das minhas crítica. Li um pouco sobre Freud e fui me tornando frio, cada
vez mais racional e cada vez menos humano. Já não sei o que é amar e nem mesmo
consigo sentir compaixão. O mundo virtual me absorveu, absorveu minhas dores, e
passei a ignorar a realidade que se me apresentava. Ainda sangro, ainda sinto
dor, ainda sou humano, mas não penso mais como um ser humano. É até engraçado,
mas tem dias que me sinto um androide. "
-
Olá MP - Nuntius vinha saltitando novamente, com o fone nos ouvidos e o cabelo
flutuando com a brisa.
-
Olá. Como você está? - disse sem se virar, prosseguindo em seu caminho.
Nuntius
o alcançou naquele instante e parou de saltitar. Seu perfume de erva doce mais
uma vez o embebedou. MP respirou fundo e algumas imagens da infância vieram a
sua cabeça, mas logo voltou para o presente no momento em que ela respondeu sua
pergunta . Sua viagem ao passado durou a infinidade de alguns segundos.
-
Estou bem, um pouco ansiosa, mas e você, como está?
-
Estou bem também. Porque está ansiosa?
-
Porque você ficou de me dizer se iríamos sair ou não. Já faz um tempo que estou
esperando sua resposta.
-
Claro. Eu aceito seu convite. Poderíamos sair o mais breve possível, pois quero
muito saber as coisas que você têm a me contar.
-
Tudo bem. Fico feliz. Mas... Você sabe que não estou saindo com você apenas por
aqueles mistérios não é?
-
Na verdade não. Quais outros motivos tem para sair comigo?
- Idiota. Eu poderia simplesmente ter lhe dito
o que sei naquele dia, ou mesmo agora, mas não o fiz. Quero passar um tempo com
você... Você é um idiota mesmo - nesse momento ela começou a andar mais
rapidamente deixando MP para trás.
MP
parou de caminhar e viu-a se destacar a frente. Não entendia o que havia
acontecido e não sabia o que deveria fazer. A única coisa que ele entendeu da
situação era o que ele estava sentindo. Ele sentia que não devia ter feito
aquilo e queria se desculpar. Começou a
correr como que por impulso e logo a alcançou.
-
Nuntius... Eu ... - alguns segundos se passaram em silêncio e ela prestava
atenção em suas palavras, ansiosa - Enfim, vamos marcar os detalhes do nosso
lanche?
-
Você é mesmo um idiota. Não só isso. Você já está tão danificado que nem um
pedido de desculpas consegue fazer. Pense nisso. Mas vamos marcar sim.
-
Não pretendo pensar e você sabe disso. Que dia sairemos?
-
Sei sim, mas tinha uma pequena esperança na sua mudança. Ainda tenho, acho.
Enfim, vamos nesta sexta feira?
-
Que dia é hoje?
-
Hoje é quarta feira - respondeu impaciente.
-
Sim, podemos sair sexta feira.
-
Que bom. Então até sexta - ela virou-se, tomou o caminho contrário e voltou a
saltitar.
-
Ei, o que está acontecendo? Se o seu caminho é para este lado, porque você está
voltando? Porque quando eu lhe tratei mal você foi para este caminho? O que
mudou?
-
Entenda MP, eu conheço mais de você do que você imagina. Beijos, louco.
MP
sorriu. Percebeu que foi enganado. Viu que aquela pirraça feita por ela foi
apenas para despertar algo que há muito ele não sentia. Ele começou a entender
ali o que ela estava fazendo, percebeu que ela estava testando-o constantemente, conhecendo-o. Passou a ver em
tudo que ela fazia, um teste. Ficou feliz por uma lado, pois pensou que se ela
ainda o procurava quer dizer que ele estava passando no teste. Por outro lado ele
se entristeceu, pois não admitia que uma pessoa pudesse fazer testes para um
amigo, quiçá um amor. Havia algo maior naquela relação e que ele era usado em prol
das ideias de Nuntius. Sua desumanidade voltou a governar.
"Ela
quer algo comigo, isto é fato, mas eu também quero algo com ela. Quero saber
sobre os mistérios da biblioteca. Mas acho que não é isto que me incomoda. Por
algum motivo estranho, a opinião dela é importante para mim. Gosto de saber que
ela pensa em mim, que fica tramando maneiras de me estudar. Gosto de pensar que
eu faço parte de seus engajamentos atuais.
Só não gosto de saber tão pouco dela. Acho que está na hora de o jogo
começar a ser jogado pelas duas partes. Porque, com certeza, eu posso descobrir
mais dela do que ela pode descobrir de mim. Ela não tem o que eu tenho, esta
genialidade superior, é só mais uma garotinha mimada."
Neste
momento três garotos passaram na rua. Os três havia estudado com MP no ensino
fundamental e certa feita haviam lhe pregado algumas peças. Ele os reconheceu e
a recíproca foi verdadeira.
-
Olha pessoal, o garotinho franzino da escola. Será que ele ainda é aquele
idiota? -disse um deles para os outros dois.
-
MP não se importou, continuou seu sentido de deslocamento.
Eles começaram então a atravessar a rua e ir
na direção de MP. Este ignorou-os e continuou andando sem dar-lhes importância.
Quando os garotos chegaram bem perto de MP um deles o empurrou e recebeu como
revide um golpe muito forte no nariz, que o jogou no chão. Os outros garotos
ficaram assustados, mas logo quiseram briga também. MP desferiu alguns golpes com
seu punho contra outro dos garotos e também o jogou no chão, mas foi
surpreendido pelo terceiro que lhe chutou as pernas, derrubando-o. Ao cair no
chão ele recebeu chutes do garoto que o havia derrubado, e com o passar dos
instantes os outros dois o chutaram também. Os golpes atingiam todo seu corpo.
Naquele
instante, graças ao acaso, os amigos de MP apareceram na esquina e logo vieram
correndo na direção da briga. Vendo a movimentação os três garotos saíram
correndo.
MP
se levantou, com um sangramento no nariz e um corte no supercilho.
- Quem eram estes garotos? -
perguntou Operiet ainda ofegante.
-
Colegas de turma.
-
Entendo. Acabo de perceber que nós quatro fomos as únicas pessoas que
conviveram com você e não te odiaram - disse Canere, sorrindo, também ofegante.
-Alguns
momentos passaram em silêncio enquanto MP se limpava.
-
Espero que isto lhe sirva de lição, MP. Você não é de aço, não é o super homem.
Algum dia seu ódio o levará para um caminho sem volta - disse Scire,
explicitamente revoltado com o acontecido.
-
É claro que não, eu poderia ter batido nos três, só que eu me distraí. Afinal
de contas, o que os trouxe até aqui?
-
Bem lembrado - disse Magnus - aquele homem chamado Eventus está na casa de
Scire. Pediu que o chamássemos.
MP
ficou paralisado. Achou que Eventus já havia até morrido. Ficou ansioso para o
ver. Saiu correndo na direção da casa de Scire. Assim que deu o primeiro passo
olhou para a esquina e viu que Nuntius o observava ao longe. Continuou
correndo, mas só parou de olhar em sua direção quando virou em outra esquina.
Ela o encarava, sem apresentar qualquer expressão.
9º TEXTO<<<<<<<-x->>>>>>>11º TEXTO
Matheus Henrique
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