Imagine se a palavra fosse humana, digo, imagine se a palavra fosse capaz de pensar, de decidir (...) e humana também a ponto de aceitar o preconceito, de se dividir e ser hipócrita. Definitivamente, o ser humano não teria paz e nem as palavras. Como por natureza, a palavra teria o extinto de sobrevivência, ela, portanto, iria conservar os humanos. Ela manipularia nossas relações faladas e escritas, quando os líderes humanos estivessem se unindo para pôr fim a uma guerra, se fosse do interesse das palavras elas se negariam a sair, inverteriam seus fonemas e mudariam toda a conversa, prendendo ali o homem sem voz própria.
As palavras também teriam seus preconceitos, o que dizer das duas potências: a palavra falada e a palavra escrita. Nas escolas das palavras seria ensinado que as palavras de outras línguas são selvagens e que a barbárie devia ser eliminada. Seriam travadas guerras entre as palavras, os humanos seriam usados e pouco a pouco elas manipulariam o mundo e uma língua mais forte seria global.
A palavra dita pelo gago seria menos poderosa que a dita por um bom apresentador, no mundo das palavras aquelas que deterem os homens mais poderosos mandariam nas que deterem os mais fracos. A única forma não manipulável de expressão que o homem teria seria a arte, mas mesmo assim a palavra poderia se negar a sair na hora de comprar a tinta!
O sonho da eternidade também estaria presente entre elas, haveria durante a vida todo um momento de preparação até que ela fosse dita, e quando a palavra dita fosse efetivamente dita diriam que ela foi para um lugar melhor, um lugar onde as palavras não dependem do homem, esse seria o paraíso. Já a palavra escrita se sentiria superior e eterna, mera ilusão, nas guerras entre as palavras, a aliança das palavras orais (que uniriam todas as línguas, mas apenas a classe oral, por que todos sabem que pela guerra existe a união) controlaria a fala das pessoas de modo a criar imensas queimas de livros, incentivariam também que arquivos de texto fossem deletados. Aquelas palavras escritas em mármore ou aquelas guardadas em museus humanos, estas, independente da língua, seriam tidas como heróis, seriam elas veneradas por todos, pois estas sim teriam se eternizado. Outro grande engano: as palavras seriam sempre eternas enquanto os humanos durassem.
A consciência da palavra seria independente do homem em que habitasse, mas todas as palavras se sentiriam mal, viveriam com um vazio em si, pois mesmo sendo poderosas ao ponto de comandar a humanidade pela própria vontade, elas não poderiam ser independentes dos humanos. Teriam seus egos esmagados, cortados ao meio e depois colados.

Os humanos, esses seriam simples e meras ferramentas para as palavras, sempre oprimidos e que muito pouco provavelmente desenvolveriam uma revolução, já que o inimigo estaria nele! Seria impossível montar uma revolução sem ser visto. E os homens que traíssem o governo da palavra não seriam mortos, muito menos enviados para prisões, seriam feitos incompreensíveis, deles seria tirada a humanidade, se tornariam novamente animais sem a capacidade de se comunicar, seriam consciências sem liberdade, desejariam a todo custo a morte, mas nunca poderiam se matar.
De ego ferido as palavras não seriam felizes e sem liberdade a humanidade desejaria a morte. Pergunto se já não é assim? Quando invertemos o homem de dono da ferramenta para uma simples ferramenta é isso que fazemos...