-
Você e o MP não fumam, não é Operiet?
-
Claro que não. Vocês que fumam têm os dentes amarelos e olheiras. Preciso do
meu sorriso e dos meus olhos. Me garantem bons finais de semana...
-
Eu nunca disse que não fumava Canere.
-
Então você fuma?
-
Não fumava até hoje. Ascenda um cigarro para mim, por favor.
Canere
pegou o cigarro e o ascendeu, como pediu MP.
MP pegou-o e colocou na boca, ainda sem jeito. Deu logo uma longa tragada
e tossiu toda a fumaça fora, mas prosseguiu até entender que a fumaça deveria
atingir seus pulmões. Na primeira vez que o fez sua cabeça deu um spin
e ele se sentiu meio morto. O gosto amargo que desceu subiu já suave e
atingiu sua boca enojando-o.
-
Porque vocês fumam isso? - perguntou, enfatizando seu sarcasmo com uma
expressão engraçada que fez todos os quatro rirem.
-
Você também não deveria estar fumando MP. De todos, eu e você somos os mais
novos e deveríamos ser mais responsáveis que esse bando de corpos sem alma.
-
Ainda não entendeu Operiet? Em se tratando de alma, o MP é o que menos sabe
sobre o assunto. E olha que ele conversa sobre quase tudo, mas pergunte a ele o
que ele sente, que não tenha relação com os pensamentos. Pergunte a ele o que
acontece em seu interior quando a cabeça se desliga.
-
Boa pergunta MP. Todos nós já tivemos amores, já sofremos, mas continuamos
saindo e dando a cara a tapa. Todos nos decepcionamos com diversas coisas da
vida, mas nenhum de nós demonstrou apatia. Deixamos a todo momento claro o que
sentimos e estamos aqui lutando por um ideal. Discutimos ideias e planejamos
ataques. Você, o garoto que deu a ideia de nos organizarmos, na flor dos
dezoito anos, faz alguns meses que só vem aqui para beber, agora fumar, e
criticar tudo que falamos. O que têm passado por esta sua cabeça?
Na
sala, além de MP, estavam Magnus, Scire, Canere e Operiet. Com exceção do
último, todos seguravam uma garrafa de vinho em uma das mãos e um cigarro na
outra. Todos, no instante em que Operiet encerrou a pergunta, repousaram o
cigarro no cinzeiro e colocaram a garrafa no chão. Parecia um gesto combinado.
Olharam para MP, que no momento olhava para o chão, fixamente. Segundos se passaram
em silêncio, até que ele se levantou, pegou sua garrafa de vinho e saiu,
passando a passos curtos e lentos, por todos que ali se encontravam, sem dizer
uma palavra. Todos o acompanharam com o olhar, sem reação; sem saber o que
havia acontecido.
-
Deixe que eu o acompanho desta vez. Incrível alguém da idade dele que não pode
andar sozinho pelas ruas... - disse Operiet, sentindo-se um pouco culpado pelo
acontecido.
Logo
o alcançou. Ele ainda carregava a garrafa de vinho que levou da sala, mas bebia
a grandes goles e sua face nem por pouco evidenciava pesar.
-
Nós não sabemos mais quem você é. Nem ao menos sabemos o que te deixou assim.
Você não conversa mais, nem mesmo com Magnus... Seu primo, que foi seu grande
amigo, hoje é um completo estranho para você. Todos nós somos.
-
Não é verdade. Vocês são importantes para mim - disse, mas sem alterar o olhar,
que se fixava na rua, sem demonstrar que o que falava era sincero.
-
Por favor, me diga o que aconteceu.
MP
parou, de súbito, e ficou olhando fixamente o outro lado da rua, assustado. Lá
passava uma garota que em muito se parecia com ele. Ela andava despreocupada,
com a calça rasgada e uma blusa do Nirvana, mas mantinha a mágica feminina que
inundava o ar. Embora seu estilo tenha chamado sua atenção, o que mais lhe fez
perder o foco foi a maneira como ela se coportava. Estava com um fone de ouvido
e saltitava. Por vezes atingia as folhas das árvores, por vezes olhava para os
pés e andava em zigue-zague. Seu cabelo, negro, esvoaçava e, embora aquilo lhe
parecesse impossível, ele podia sentir seu perfume dali. Cheirava a erva doce e
lhe lembrava de sua infância, embebedando-o de lembranças. Ela tinha alguma
coisa que ele não podia explicar, nem ao menos entender. Algo parecido com
alegria.
-
Gostou daquela garota?
-
Não exatamente, ela só prendeu minha atenção.
-
Vá conversar com ela...
-
Não é necessário - disse, virando-se para a direção a qual percorria antes do
ocorrido.
-
Quem diria, o senhor mestre da argumentação, que sempre que fala faz parar
alguém, sempre que abre a boca conquista uma nova mente, sem jeito de falar com
uma garota.
-
Quem diria então, o senhor da sedução, que sempre que sai conquista um novo
corpo, que sempre que conversa com uma garota destrói uma vida, me ensinando a
portar-me frente a tal situação.
Uma
pausa.
-
Sua sinceridade e seu sarcasmo... Coisas que nenhum de nós tivemos a felicidade
de conhecer enquanto ainda éramos garotos e não nos importávamos com você. O
que uma visão do futuro não pode mudar...
Operiet
virou-se e tomou o caminho contrário, visando o porão da casa de Scire. MP
continuou em seu caminho, mas não parecia mais tão apático. Duas sensações lhe
reviravam o pensamento, periodicamente. Por vezes pensava na garota e no que
sentira ao vê-la e logo perdia o raciocínio e vagava sem rumo, depois as
palavras de Operiet lhe tomavam a mente e novamente sua expressão voltava ao
que era. Operiet era péssimo com as palavras, mas MP era um bom entendedor e
conseguia ver o que ele sentia ao pronunciar cada uma delas. No geral ele podia
ver isso em qualquer pessoa com quem conversava. Ele olhava além do que os
olhos lhe apresentavam, sempre.
MP
decidiu voltar para casa, mesmo bêbado e assim o fez.
Operiet
chegou no porão e encontrou todos os outros bêbados também, jogados ao chão.
Mas estavam conscientes suficiente para perceber que ele voltara sem MP.
-
Onde está o novo maluco?
-
Ficou pelo caminho. Ele disse coisas que me ofenderam, mas o deixei por outro
motivo: percebi que ele precisava
pensar. Ultimamente ele tem precisado muito de tempos sozinho e nós não lhe
concedemos isso. Estamos sugando toda produtividade dele e esquecendo de
deixá-lo se recuperar.
-
Acha que ele pode fazer alguma besteira sozinho? - disse Magnus, que logo
retomou a pose ao perceber que o primo não havia chegado.
-
De que tipo? - perguntou Scire.
-
Não sei. Acham que ele pode estar sofrendo de depressão.
-
Mas é claro que ele está. Todos nós estamos depressivos. Estamos em um porão
imundo, bebendo vinho barato e fumando cigarros de grama. Por favor, sejam
sinceros e me digam se algum de vocês está bem. Nenhum de nós está, mas todos
temos motivos para acordar todos os dias. Não somos suicidas. Ele não se
deixaria levar por este sentimento, assim como nós - Canere gaguejava, tomado
pelo álcool, mas se fez parecer certo, com um tom de voz que transmitisse
exatamente o que pensava.
-
Será que MP pensa dessa forma?
Ninguém
disse nada. Todos se olhavam, sem resposta. Depois de um tempo pararam de
pensar na questão e cada qual começou a se perder em sua loucura alcoólica e
foram, aos poucos, apagando-se no chão. Com exceção de Operiet que não
conseguiu tirar da cabeça a imagem de MP observando aquela garota caminhar. Ele
viu, naquele rosto gasto pelo álcool, o garoto que conhecera, ainda no primeiro
ano do ensino médio. O sorriso que antes vinha com facilidade, quase se esboçou
no rosto daquele novo punk. Sua calça rasgada e suja, sua camisa que a priori
era branca, mas que já estava amarelada, e seu cabelo que não era penteado
fazia dias deram lugar ao garoto que ia à escola todo engomado, parecendo um
garotinho rico.
Operiet
rezou naquela noite - para o acaso, já
que este também era ateu -para que devolvesse ao MP a vida que ele mesmo jogou
fora. Não sabia o que lhe havia acontecido e se sentia culpado por isso. Já
havia perdido as esperanças de melhora, mas aquele olhar as reavivou. A faísca
de felicidade brilhou no olhar de MP e Operiet se alegrava por isto,
martirizando-se apenas por não saber o motivo.
Matheus Henrique