terça-feira, 28 de agosto de 2012

MUTARE - 9º TEXTO


                Os cinco estavam no porão da casa de Scire. Estavam distribuídos pelo cômodo, cada qual bem largado. Naquela tarde, assim como nas últimas, MP, Canere, Scire e Magnus bebiam uma garrafa de vodka barata e fumavam um cigarro enquanto Operiet comia um chocolate apenas. Os quatro que bebiam estavam já um pouco alterados, pois estavam já há algum tempo bebendo.
                Estavam no porão desde as duas da tarde, sem conversar nada de produtivo. Já passavam das sete. MP convocou a reunião no dia anterior e a marcou para aquele dia, pois queria falar com todos os geniosinhos, mas sua prioridade era naquele tempo apenas embebedar-se.
                A sala estava carregada de uma fumaça pesada que constrangia até mesmo os pulmões de Operiet, que não fumava. Ao fundo tocava um rock tranquilo, bem clássico. Destacava-se o som de The Doors,mas não era a única banda que tocava no pequeno aparelho de som.
                - Afinal de contas, o que estamos fazendo aqui? - perguntou Operiet, que ainda são, pode se lembrar do motivo de ali estarem.
                - Verdade. Me desculpem "senhores" - bêbado MP virava um piadista - vim aqui para lhes falar sobre uma conversa que tive dias atrás com uma garota.
                - Você poderia explanar melhor suas ideias? Quando você diz garota, você quer dizer um ser humano do sexo feminino ou é apenas mais uma metáfora? - o outro piadista era Canere, que não perdia a oportunidade de maximizar tudo aquilo que achava estranho em MP.
                - Um ser humano do sexo feminino...
                - E quando você conversou com uma garota? - perguntaram em coro.
                - Continuando. Eu estava no ponto de ônibus e encontrei com uma garota. Ela me abordou e perguntou algumas coisas sobre mim e principalmente sobre nós cinco.
                - O que ela sabia sobre nós? - Scire perguntou enquanto se levantava, com o cerebelo evidentemente abalado.
                - Nada de mais. Disse apenas que sabia sobre as nossas reuniões e que só não sabia o que planejávamos. Ela disse que nossa pequena cidade esconde alguns mistérios, mas acho que ela exagerou nesta parte.
                - Não importa o que você acha. Foi apenas isso que ela disse? Não consegui captar o sentido desta conversa.
                - Não foi só isso. Ela disse que teceria maiores comentários se eu aceitasse levá-la para comer alguma coisa um dia desses. E por isto estou conversando com vocês. Vim informar que decidi saber mais sobre o assunto e que irei me expor à esta intimidade, e também irei expor vocês.
                - É aquela garota que nós vimos na rua tempos atrás, MP? - perguntou Operiet, ignorando o fato observado por todos de que MP havia sido convidado para um lanche por uma garota.
                - Ela mesmo...
                Todos se calaram, embora ainda houvessem piadas escondidas nas cabeças dos garotos. Fora as piadas, não havia o que falar, pois MP não veio pedir permissão ou conselhos de seus amigos, veio apenas informar uma decisão que tomou. Restou a todos procurar saber o máximo sobre o assunto já que uma argumentação só poderia favorecer MP, o que melhor trabalhava com palavras. Mas eles não quiseram saber mais, confiavam em MP.
                Continuaram nas mesma inércia que estavam desde as duas horas. A partir das dez horas os garotos começaram a ir embora. Primeiro Operiet, depois Canere. Por último foram juntos MP e Magnus, pois ambos eram vizinhos. Decidiram todos fazer o percurso até as suas respectivas casas a pé. Scire retirou-se, trancou o porão e foi para sua casa.
                - Operiet me contou sobre a garota e sobre o acontecido na rua. A maneira como você a olhou, contou-me detalhadamente - disse Magnus, depois de uma pequena caminhada em silêncio, com cada qual imerso em seus próprios pensamentos, tanto ele quanto, principalmente, MP.
                - Porque não me disse isto antes? Que ele havia lha contado? Eu já estava esperando esta conversa, mas ela nunca acontecia - MP estava minimamente concentrado na conversa, o que era uma coisa boa em conversas com ele.
                - Você já sabia? Esquece... Enfim, o que sabe sobre esta garota?
                - Não muito, ela apenas veio conversar comigo, dizendo que sabia sobre mim. Eu não a conheço.
                - Ela lhe lembra a Tristitia, não é?
                - Parece uma versão melhorada dela. Sua casca toda simples esconde um interior de complexidade infindável...
                - Eu imaginei. E o que você sentiu quando ela veio conversar com você no ponto de ônibus?
                - Nada de mais. Tratei-a como trato qualquer pessoa.
                - Sei, com arrogância, sarcasmo e apatia. Mas eu sei que com ela foi diferente. O que você sentiu? E não minta, eu sei quando você mente.
                MP agora olhava para frente e encarava o vazio. Seus olhos estavam profundos e ele parecia estar vagando pelas partes mais ocultas de sua mente. Passou os braços para trás do corpo e segurou o punho esquerdo com a mão direita. Estava imerso em seus pensamentos e todos os movimentos que fazia eram de responsabilidade do subconsciente. Aos poucos começou a abrir a boca e tecer os primeiros comentários, sem pensar no que falava.
                - Não sei bem... Quando a vi senti uma coisa que há muito não sinto. Fiquei paralisado, sem reação. Eu só conseguia olhar para ela e admirar seu jeito de se comportar. Ela se locomovia de uma forma tão parecida com a Tristitia... E seu perfume, ah seu perfume. Não pensei nada naquele momento. E quando ela me procurou para conversar, neste último encontro, eu tentei, juro que tentei, tratá-la como trato qualquer outra pessoa, mas fracassei. Quanto mais ela falava, mais fascinado eu ficava. Não entendi até agora o que aconteceu e eu já perdi muitas horas pensando nisso...
                - Eu sabia. Felizmente você ainda guarda vestígios do hominídeo que você um dia foi MP. É bom saber que eu não te perdi ainda e que meu primo, aquele garotinho que cresceu comigo, ainda mora ai neste peito conturbado. Fico feliz por você.
                Ambos voltaram a caminhar em silêncio, e assim foi feito até a casa de cada um. MP manteve aquela expressão distante até chegar na porta de sua casa. Magnus por vezes o olhava, mas deixou-o sozinho com seus pensamentos. Toda vez que olhava para MP, Magnus sorria discretamente.
8º TEXTO<<<<<<<-x->>>>>>>10º TEXTO
Matheus Henrique

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