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Não sei se acredito...
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Não tem porque acreditar. É uma coisa que vem de dentro. As pessoas que como eu
acreditam não tem um motivo racional para o fazer. Simplesmente o fazem. Deus
não é algo que eu possa lhe explicar. Mas admiro este seu questionamento.
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Mas você me disse que a razão deveria estar acima de todas as coisas.
-
Eu disse também que nós não poderemos explicar todos os mistérios que nos
fossem apresentados.
-
Mas só porque não conseguimos responder uma pergunta não quer dizer que ela não
tenha uma resposta, ou que precisemos responder
qualquer coisa para preencher este vazio. O senhor está errado!
Eventus
olhava MP e estava um pouco admirado. O garotinho que a muito conhecera havia
crescido e completava naquele dia quinze anos. Não era um homem ainda, mas
estava no caminho.
Durante
todos estes anos os dois se reuniam de tempos em tempos e discutiam sobre
assuntos que variavam bastante. Falavam
sobre política, filosofia, romances, futebol, alegrias e tristezas e falavam
principalmente sobre a vida. O garotinho que não tinha quase nenhuma experiência
de vida aos poucos foi agregando o conhecimento do sábio homem e construindo sua
base de pensamento. Não eram filósofos, nenhum dos dois, eram loucos apenas,
que viviam a vagar pelas ruas conversando conversas sem sentido, almejando
algum dia mudar alguma coisa em suas vidas. A vida de MP não estava ainda destruída,
mas Eventus lhe garantira que era só questão de tempo para que isto
acontecesse. E o garoto tomou a responsabilidade pelo futuro escrito por seu
mentor e já foi se recuperando de um perda que não sofrera.
-
Esta será nossa última reunião.
-
Mas... porque? Tem dado tão certo, minha cabeça tem funcionado tão bem. O que
aconteceu?
-
Estou partindo em um última jornada. Preciso descobrir algumas coisas e tenho
confiança de que agora você está bem amparado.
-
Mas, eu não sei de nada ainda, preciso do senhor. Que belo presente de
aniversário... - disse com lágrimas nos olhos, olhando para seus pés.
-
Por isto também. Lhe dei a base teórica. Agora viva sua vida da forma que
quiser, mas nunca se esqueça das coisas que lhe ensinei. Este é o melhor
presente que alguém poderia lhe dar, acredite.
-
Tudo bem, eu confio no senhor. Sentirei saudades. O senhor preencheu em meu
peito o vazio que a falta do meu pai criou durante minha infância.
-
Você preencheu este vazio, assim como você também o criou. Não culpe os outros
pelas coisas boas ou ruins que acontecem em sua vida. Você é o único
responsável por elas. Abraço meu nobre garotinho. Continue desta forma e irá
longe - disse virando-se e tomando um beco que parecia não ter fim.
Ambos
estavam parados em uma encruzilhada daquela pequena cidade. MP viu seu mentor
partir e não pensava em nada, apenas observava. Depois de um tempo virou-se e
começou a caminhar de volta para casa, entristecido.
Meses
se passaram e MP viveu sua vida como um garoto normal. A partida de Eventus criou
um vazio no peito de MP, uma solidão inexplicável. Ele não mais conversava
sobre aqueles assuntos, pois todos que o cercavam eram de uma filosofia muito
simplista e ele gostava apenas do complicado. Passou triste todo este tempo até
que conheceu, na escola, uma garota.
Seu
nome era Tristitia. Tinha o cabelo da cor de ouro e os olhos castanhos. Mas não
era um ouro comum, era um ouro que hipnotizava MP a cada vez que a via. E seus
olhos eram poços de uma simplicidade que por tanto tempo ele odiou, mas que
agora o trazia de volta a vida. Ela era simples, modesta e não era culta.
Falava calmamente, quase cantando, e inundava os ouvidos de MP.
Eles
se conheceram em sala de aula e passaram por todos os processos sociais
possíveis. Foram colegas de trabalhos e exercícios, logo se tornaram amigos e
passavam muito tempo juntos. Em determinado momento MP percebeu que estava
apaixonado e que aquela garota era o centro de seu universo. Esqueceu, por ela,
a filosofia, e tudo que odiava no mundo. Seu mundo ganhou cores finalmente.
Isto
tudo não ocorreu em horas. Foram meses de vivência que aos poucos foram moldando
seu coração, por hora quebrado, e preenchendo vazios que não paravam de surgir.
Mas
o conto de fadas durou pouco. MP, embora agora visse o mundo de outra forma, manteve
seu temperamento explosivo e continuou a não pensar no que fazia ou falava. Em
pouco tempo amando-a e sofrendo por isto, pela impossibilidade que ela por
vezes criava, e por vezes desmanchava, ele enlouqueceu. Enlouqueceu em sua
loucura normal, há tanto esquecida por ele, mas incompreendida por ela. Ele não
mudou e este foi o caos no relacionamento. Ele não conseguia ser simples como
ela, era excêntrico e toda sua excentricidade explodiu em pouco tempo. A
filosofia falou mais alto em seu peito.
Ela
não podia lidar com seus ataques de loucura, suas ofensas sem motivo e depois
seus pedidos de desculpa que poderiam fazer a morte chorar. Ele aos poucos foi
tornando-se um cavalheiro da destruição. Por onde passava causava tristeza, mas
tinha o poder de transformá-la em alegria e amor, apenas remediando o problema,
sem de fato curá-lo. Cumpre ressaltar que um coração partido não se concerta
com palavras. Por tudo isto ela se afastou, aos poucos, deixando-o sozinho com
seus pensamentos. E nem mesmo eles o quiseram de volta. Seu mundo acabou, sua
filosofia estava fraca, sem fundamento, sua inteligência estava vencida e seu
coração estava partido. Não sobrou nada daquele MP feliz, que por pouco tempo
existiu.
Ele
vagou pelo mundo, por mais alguns meses, como um zumbi. Concordava com tudo,
fazia o que lhe era pedido, ia para onde todos iam e só procurava um tempo de
descanso para chorar o passado perdido.
Encontrou,
em pouco tempo, apoio no álcool. Era mais um adolescente vencido pela mídia e
entregue ao fracasso das drogas lícitas. O garoto superdotado, que nasceu em
berço de feno, criado por pais simples e pobres, jogava naquele tempo todo um
futuro fora. Não era mais um gênio, não era mais filósofo, nem era mais humano.
Era um corpo, que vagava sozinho, rabiscando nas paredes da vida pedidos de
socorro.
Tudo
que um dia Eventus lhe ensinou, naquele tempo, se resumia a nada. Ele se
recuperou da perda antes que ela chegasse e quando ela chegou não havia nada
que ele pudesse fazer. Nãou houve resistência ou recuperação. Só o que havia
era um abismo escuro entre ele e seu futuro.
Matheus Henrique
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