terça-feira, 7 de agosto de 2012

MUTARE - 4º TEXTO


                Manhã de segunda feira daquelas bem clichês. Os pássaros cantavam ritmados, as árvores apresentavam um verde brilhoso, os carros corriam nas avenidas principais, os adultos acordavam e as crianças despertavam. Em um lugar especial daquela pequena cidade um garotinho de 10 anos vai até a casa de seu primo, de 8 anos, chamá-lo para que juntos fizessem o caminho até a escola - ambos estudavam no mesmo  local.
                O garoto mais velho, portando uma mochila verde com bordados infantis, vai guiando o mais novo, todo vestido de modo a indicar que sua mãe o ajeitou antes de sair, pelas ruas da cidade. Já eram dois garotos bem espertos apesar de suas idades. Em um momento, quando se aproximavam dos portões da escola, um homem lhes chamou. Este homem estava vestido com um casaco preto, que descia até quase os joelhos, e uma calça jeans rasgada. Os garotos se aproximaram, sem colocar maldade na ocasião, até porque o local era bem movimentado e qualquer grito poderia denunciar um possível crime.
                - Quantos anos vocês têm? - perguntou ao mais velho.
                - Eu tenho dez anos, meu primo tem oito, e o senhor?
                - Não importa minha idade, até porque não me lembro mais de quantos anos tenho. A idade é um conceito idiota, é só um número que não diz nada sobre ninguém. - parou por alguns segundo e refletiu sobre o que havia dito, logo voltando a atenção aos garotos - Onde vocês moram?
                - Moramos aqui perto, alguns bairros naquela direção, porque o senhor quer saber?
                - Porque eu queria saber se vocês querem passear hoje em alguns lugares, no horário de aula, depois eu posso trazê-los de volta aqui.
                - Não, nós vamos assistir à aula - disse o garoto mais velho, assustando-se com a proposta.
                - Espere... eu quero ir com ele - disse o garoto mais novo, mantendo suas feições normais como se não tivesse entendido a situação.
                Seu primo ficou apavorado naquele momento. Lembrou-se do que sua mãe havia lhe ensinado e também dos filmes e desenhos que havia visto. Sabia que nada de bom poderia acontecer ali, embora ainda não entendesse muito bem as extensões da maldade humana. Pegou seu primo pelo braço e começou a arrastá-lo em direção à escola, mas tanto o garoto como o homem se olhavam, fascinados um com o outro, e mal davam importância para o que acontecia além daquela situação.
                - Você está louco? O que acha que sua mãe vai pensar quando souber que você saiu com um estranho, e não só isso, o que você acha que vai acontecer? Não vê o que ele pretende?
                - Acalme-se! Você é que não consegue ver o que está acontecendo e quem é este homem. Não importa o que você diga ou faça, pois você não vê o que eu estou vendo, então sua única solução é vir comigo - disse todas estas palavras ainda olhando fixo para os olhos surrados daquele homem, que lhe retribuía o olhar, agora com satisfação.
                O primo do garotinho soltou seu braço e o deixou partir com o homem, e seguiu-os, caminhando a passos curtos logo atrás dos dois. O homem falava coisas que o garoto mais velho não entendia. Falava sobre política e filosofia e criticava as pessoas que passavam na rua. Ele estava dando uma aula ao garoto mais novo, que parecia saber tanto quanto aquele homem.
                 - E o que você sabe da vida garotinho? - Perguntou o homem ao mais novo dos garotos, depois de um tempo de conversa.
                - Não sei nada senhor. Tudo que eu faço é vir para a escola e escutar a professora falar sobre coisas que não vejo fundamento em saber. Passo a aula pensando em outras coisas e inventando diálogos em minha mente.
                 - E isso prejudica suas notas?
                - Acho que não, pois tenho uma das maiores notas da sala. Mas os assuntos são muito bestas, coisas que eu não preciso me esforçar para entender, que entendo como entendo conversas que tenho com minha mãe, como entendo esta conversa com o senhor.
                - Você não está entendendo esta conversa - afirmou, e todas suas feições indicavam que estava certo do que estava dizendo.
                - Como não? Você me pergunta e eu te respondo, com palavras que são coerentes ao que você diz. Isso é entender certo?
                - Sim, mas você sabe porque estou fazendo isso?
                - Porque o senhor passou a vida toda achando que os seres humanos são ruins, e passou o tempo todo querendo provar isto, mas não teve sucesso. Abandonou varias coisas em sua vida, sendo que estas agora lhe fazem falta. E agora que perdeu as esperanças em si mesmo quer apenas deixar para alguém os conhecimentos que o senhor adquiriu, para não sentir que sua vida foi em vão. Só não sei por que o senhor me escolheu.
                O homem parou de caminhar enquanto ouvia estas palavras, não entendia como era possível que um garoto daquele tamanho tivesse tal sensibilidade. Lágrimas começaram a correr em seu rosto e o garoto mais velho não entendia o que estava acontecendo ali. Aquele momento durou uma eternidade e acabou cinco minutos depois quando o garoto mais velho resolveu falar.
                - Senhor, me desculpe interromper, mas o senhor não disse seu nome...
                - Me chamo Eventus. E você garoto, como se chama? - retribuiu a pergunta em uma resposta automática de educação, enquanto enxugava o rosto.
                - Meu nome é Magnus, senhor.
                - E você garotinho, como se chama - agora estava um pouco mais concentrado naquela convenção  social que se desenrolava, embora lágrimas ainda corriam em seu rosto.
                - Me chamam de MP, senhor...
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Matheus Henrique

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