-
Brigamos no centro...
-
Outra vez?! - uma expressão de surpresa tomou o rosto do rapaz, desfigurando o
tom de homem sério que ele sustentava.
-
Sim, e sem motivos novamente. Ou com motivos, mas só o MP sabe - Magnus
respondeu em um tom baixo, parecia muito descontente com a situação.
-
Mas desta vez algo de diferente aconteceu. MP está encolhido naquele canto, de
uma forma que eu nunca havia visto.
Antes
que Magnus pudesse responder, o policial entrou na sala e chamou o rapaz,
Scire. Mas antes que este saísse da sala o policial anunciou que o garoto que
havia sofrido a agressão quebrará o nariz, apenas.
Scire
saiu, e voltou alguns minutos depois. Pediu que os dois se arrumassem e
levou-os embora. Ambos estranharam a sugestão, mas assim o fizeram sem
contestar.
-
O que aconteceu - Perguntou Magnus, assim que saíram do DP.
-
Em relação ao que? - disse Scire, de olhos fixos em MP.
-
Nós nem conversamos com os policiais, nos liberaram facilmente depois do que
fizemos... Como pode isso?
-
O policial que fez o boletim faz faculdade comigo. Não foi difícil convencê-lo
de que vocês não fizeram por mal - disse com um meio sorriso no rosto - E você
MP, está ficando louco? - agora sumindo com aquele rastro de sorriso.
-
Perdi a cabeça - respondeu ele, sem nem ao menos mudar a expressão que
apresentava, olhando para a rua, distraído.
-
Com o que? Você nem conhece esses garotos e é a terceira vez que briga com
eles! - Scire alterou a voz, seu rosto moreno já perdia a coesão e o terno não
mais combinava com ele.
-
Pena que eu esqueci meu MP3, seria interessante agora ouvir Come as you Are... Aliviaria toda esta tensão.
Scire
a Magnus se olharam sem entender. Por fim deixaram MP com suas viagens de lado,
como de costume. Nos últimos meses haviam se tornado frequentes estas grandes distrações
de MP, embora ele se distraísse facilmente desde garoto.
-
Pensei, quando fiquei sabendo que vocês foram presos, que era por causa da pichação
- Disse Scire quebrando o silêncio que se formou naquela caminhada.
-
Pode ficar tranquilo, ninguém nunca vai saber quem fez aquilo.
-
E quando faremos outra coisa?
-
Assim que este louco voltar ao normal... e ambos olharam para MP, que olhava para
o chão e caminhava sem ritmo ou destino, apenas seguindo seus amigos.
-
E isso ainda é possível?
Dali
em diante os três fizeram o caminho de volta em silêncio, cada um submerso em
seus próprios pensamentos. Scire deixou ambos os garotos em casa, e voltou
dirigindo para seu lar. No caminho fez um tour pela cidade. Passou por caminhos
não habituais, viu alguns rostos novos e algumas injustiças da sociedade. Viu algumas
coisas que sempre o levavam a refletir, absorvendo-o do mundo real.
Viu,
por exemplo, no farol, uma Brasília enferrujada parada ao lado de um carro que aparentava
ser muito caro. Eram estes os tipos de coisas que o tiravam do sério: as
grandes impunidades do mundo. Ele fazia faculdade de direito, e por várias
vez
es livrara a barra de MP com a polícia e isso nunca o incomodou. Essa impunidade,
onde o homem do bem não se complica, mesmo estando errado, não o incomodavam. Ele
se incomodava com a impunidade do capitalismo, principalmente quando esta se
manifestava explicitamente sob seus olhos. E ele sabia que não podia fazer nada
e isso doía em seu peito, mas ele nunca parou de lutar.
Foi
para casa com algumas imagens na cabeça. Esquivou-se da porta de entrada e foi
direto para o porão, conscientemente - como quem se lembra de algo, dirigiu-se a
porta, ansioso. Abriu a porta e adentrou, pensativo. A imagem que lhe veio
quando acendeu a luz foi a que estava esperando: Cartazes espalhados por toda a
parede, frases libertárias pintadas por todo lugar, móveis revirados e tudo mais
que poderia deixar aquele lugar com a pior aparência possível. No canto da
sala, escondido, estava um banco com alguns papéis e fotos, um aparelho de som.
Havia por ali também uma geladeira, preenchida de bebidas alcoólica e sobre a mesma,
um cinzeiro.
Scire
pegou seu celular e ligou para a casa de MP. O próprio atendeu.
-
Lembrei agora de conferir o porão...
-
E o que achou?
-
Fez um bom trabalho com aquele canto.
-
Obrigado... - respondeu MP, sem se importar muito.
-
Só precisa agora aprender a se comportar como alguém que quer mudar o mundo.
-
Quem você acha que precisa mais da sua preocupação, eu ou o mundo? Então não se
distraia e não me incomode, pois estou escrevendo - e desligou o telefone,
deixando suas palavras vagando no ar.
Matheus Henrique
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