Moke, com uma voz rouca, de vitalidade perdida e com os olhos espelhando uma brava história começou seu conto:
“Não me lembro bem quando foi, acho que era década de trinta, tempos antes de eu conhecer minha primeira mulher, eu ainda era jovem, uns dezoito anos, tinha ido pela primeira vez na minha vida a um bordel. Lembro que a rua estava deserta e com uma geada forte de branquear os arredores, estava andando feliz pelo cais, esperava encontrar uma mulher por lá, um dos meus amigos na época, chamado Regis veio correndo em minha direção, gritando meu nome aos sete mares. Ele queria me convidar para uma aventura.
Eu era jovem e não entendia que a morte podia não ser uma boa aventura, mas eu fui, nesse mesmo barco que estamos agora. O governo estava oferecendo uma boa recompensa para quem capturasse e matasse uma baleia que já tinha afundado muitos dos barcos amigos. Devíamos ser apenas mais um nas estatísticas daquele animal maligno.
Estava frio, muito frio, eu pedi um casaco, mas o máximo que fizeram foi zombar do meu frio. Eu olhei para o mar, senti algo muito ruim, olhei para os marujos e vi a morte, olhei para mim mesmo e me vi um cadáver. Foi tenebroso, e é até hoje quando eu me lembro. Os homens velejavam no vazio esperando a baleia chegar, e eu estava com eles, alguns jogavam truco e zombavam da baleia, das suas mulheres, dos seus amigos e até de si mesmos, ou outros fingiam se apoderar de coragem, mas estavam molhando as calças.
Eu fui o primeiro a ver a baleia, ela era enorme, tinha uns trinta metros de comprimento, os dentes rangiam afiados, tinha os olhos inchados e sangravam muito, as feridas pelo corpo davam a ela a imponência de ter vencido muitas guerras...”
O capitão teve um ataque de espirros, alguns marujos comentavam se ele ainda ira morrer antes do barco afundar, ele era um homem de garra e por isso desprezado por muitos. Tudo estava calmo, profundamente calmo; mesmo para pessoas ameaçadas pela morte.
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