O dia já tinha se passado, os homens de fé já tinham perdido toda a que tinham, os ateus estavam implorando para o nada, a mulher simplesmente sorria com as crianças – me parecia a mais sensata de todas as pessoas naquele barco. Jonas, com sua expressão amigável, embora cabisbaixo pelo confronto com a morte continuou sua história:
“O presidente, depois que sua mulher saiu, voltou para sua mesa, sentou-se e chorou. Ele sempre teve dois sonhos na vida: ter uma família ou governar uma revolução. Com qualquer um ele ficaria feliz, mas fazia tempo ele já tinha se convencido de que podia ter os dois, agora se encontrava sem saída, senão voltar as suas origens e aceitar o seu eu verdadeiro. E sim, isso dói muito.
Mas ele era forte e tinha o dever de fazer isso: pensou então que a nação viria a ter muitos outros revolucionários, mas que seu filho só teria um pai por toda a eternidade. E que não queria que ele crescesse sem um. Era hora de conhecer a si mesmo. Ligou então para o exército e mandou cancelarem a missão – não haveria nenhum militar nas ruas. Ligou para os parlamentares e recuou todas as suas idéias, os revolucionários se mostraram fracos e aceitaram a oferta de uma troca de interesses.
Ele saiu da praça dos três poderes, foi até seu apartamento – sabia que sua mulher estaria ali. Abriu a porta, foi até o quarto e viu ela chorando, reclamando e arrumando as malas. Eles se olharam e ela disse:
- Eu escolho a nossa família!
- Demorou tanto assim para descobrir isso¿
- Não... sim... depende... eu tinha que pensar, amor.
- Não me chame mais de amor.
- Certo, mas você acha que foi fácil deixar o poder, a revolução e a mudança por nos¿ Eles eram o segundo amor da minha vida, mas meu ego só agora me permitiu ver quem era o maior amor da minha vida. E era você, e agora o nosso filho. Eu não posso confiar em uma nação, mas posso prometer minha vida em uma aposta sua.
Ela chorou, parou de fazer as malas e disse:
-Eu... eu... essa foi a maior prova de amor que você já me deu, mas não é isso. Você foi indeciso.
- Não, nunca estive indeciso, apenas me fiz de forte.
- Você sabe quantas vezes você já discutiu isso comigo¿
- Muitas, mas em todas tivemos um motivo para não brigarmos, por favor, eu desfiz a revolução inteira, amanhã terei que sair do país e vocês virão comigo, eu quero o bem de vocês. Eu amo vocês
- Você pode estar certo, que outra mulher no mundo teve tamanha prova de amor. Nenhuma. Eu vou, mas não me encoste.
Ela continuou fazendo a mala, mas agora para ir com ele. E os dois ficaram ali no quarto, se observando, olhares que queriam dizer algo. Mais tarde, ainda casado com ela, com seu filho já na faculdade, ele se tornou escritor e disse em um dos seus livros:
- Existem dois tipos de história: uma que vive eternamente nos livros de história, mas é manchada de sangue e a outra que vive finitamente nas pessoas que você cativou e é marcada pelo amor. Às vezes alguns homens se vêem na difícil posição de escolher a qual honra iriam se dar.”
Muitos no barco se calaram, aparentemente não tinham entrado para história sequer alguma, Oliver gritou (sem ser escutado):
- Asneira! Asneira! Ele só queria sexo, mas era burro e não conseguia ninguém além da sua mulher.
Permaneceram em estado de choque por uns trinta minutos. Menos a mulher e as crianças que pareciam fora daquele terror. Era a vez do capitão contar uma história, o homem pegou seu charuto cubano, rançou-o da boca, olhou para a mulher de baixo para cima, viu os drogados se atirando no chão disputando o charuto e olhou para seus filhos, chorou de tanto ser forte.
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