E as convenções sociais continuam! Dessa vez quero relatar uma festa de 15 anos, se é que podemos chamar algo desse gabarito de festa, é preferível chamar de evento – tanto por ser mais chique, quanto pelo gasto avantajado de um evento como esse. Retirando das minhas frescas memórias, lembro-me de um desses dias.
Era um sábado, a festa estava marcada para começar lá pras nove, como diria minha mãe. Cheguei nove e meia, ainda eram poucos os presentes, mas com o tempo o número aumentou. Refrigerante, cerveja, salgados, bombons, bolo e um pouco mais; antes que vocês perguntem: não, eu não bebi, não, eu não me entupi de comer, não, eu não morri por lá. O ambiente era inóspito para um nerd, nada com que pudesse fazer ligações, exceto a belíssima mesa de som, o computador e os lasers... Só um canhão de laser já faria brotar lágrimas nos olhos de muitos, eram tão belos aqueles pixels. E eu estava lá, sentei-me em uma mesa atrativa, pouco tinha acabado de me alimentar e me vem um indivíduo, ou melhor, três amigas que me pedem para terminar de renderizar um vídeo, ou na palavra delas: passar pro media player. O que eu podia fazer contra esse pedido¿ Aceitar era o que me restava! Mas nunca é apenas isso, né¿ Ser o carinha da informática significa que você deve realizar todo tipo de serviço: conectar o DVD novo (comprado nas Casas Bahia) da sua tia querida, configurar o roteador da empresa do seu amigo sem ganhar nada, formatar o PC da sua prima, saber sobre desenvolvimento web pra fazer aquele site “simplesinho de dois minutos” que o miserável do dono da padaria vai te pedir, isso é claro sem que você receba o devido valor – tanto que se receber metade do seu preço já e muito, afinal “você só ficou o dia todo na frente desse computador ai”-, podem te pedir também para arrumar aquela fiação que queimou, para salvar o banco de dados que acidentalmente uma criança apagou, ou a mais famosa de todas: sempre, e isso é regra, vão te pedir pra colocar Windows sete em um k6.
Lá estava eu, sentado atrás do palco, sonhando com um mundo em que eu não seja tirado de uma festa pra fazer trabalho sujo! Mas me deram um tempo, eu me esforcei pra entregar trinta minutos depois – e olha que o computador era uma merda na renderização (espero que os leitores não se importem com os palavrões, eles são tão comuns no dia a dia que nem tenho por que censurá-los aqui, e querido estudante, não use palavrões no Enem, caso queira passar uma mensagem de amizade para o governo piche o congresso, brigue com o presidente ou pior: coloque a sua mente pra funcionar). Os convidados passavam, olhavam para o palco e me viam sentado, editando um vídeo, na frente de um notebook – isso zerava as minhas chances de pegar alguém, mas ora vias, já eram bem baixas (eu estou rindo de mim mesmo, sou um gênio ou um retardado¿ Difícil escolher, mas eu prefiro a genialidade).
Terminado o trabalho sujo, voltei para as mesas, a minha mesa, o meu copo e a minha vista já tinham sido ocupadas por outros seres humanos. Lamentável! Eram pouco mais de onze horas e a festa começa a dar matéria: ocorre o roubo de um celular. A pergunta é: se apenas haviam convidados da família, dos amigos e dos colegas lá dentro, quem foi o ladrão e traíra ao mesmo tempo em que cometeu o ato¿ Mas nem isso era o bastante, a garota que teve o celular furtado, na sua posição de reclamona e filhinha de papai (ou mamãe) fez questão de ligar para sua querida e amada mãe para reclamar o ocorrido. Essa nobre senhora, que como é de se deduzir é como a filha, ameaça chamar a polícia, a mãe da debutante faz de tudo para impedir, convenhamos: o que vale mais; um celular ou a festa de quinze anos (que só ocorre uma vez na vida) de uma garota¿ Acertou quem disse a festa, mas nem todas as pessoas entendem isso. Por fim, os tiras não chegaram à festa.
Mas nada pode deter o azar, ele é sistemático. A debutante dividia suas lágrimas com o quase fiasco da festa e com as belas homenagens das suas amigas. Então, como que por alegria da mãe citada anteriormente, o namorado da garota entra em um briga, o motivo era um simples mal entendido entre amigos – que hoje nem devem ser mais amigos. Vários homens juntam em um só, o pau come solto fora da festa – a briga passou do salão, pro banheiro, pra escadaria e depois pra rua – enquanto outros “paus” endurecem dentro do salão. Estou duvidando da índole dos convidados agora, e com razão.
Quando eram duas horas, os barracos já tinham acabado e outros celulares tinham evaporado, mas idem. Enquanto tudo isso rolava, meus colegas e amigos tentavam tirar o nerd que habita a minha alma e me deixar doidão, é... eu não lembro bem se conseguiram. Sei que não bebi, sei que me colocaram na pista de dança, mas eu não dancei – embora a motivação que foi dada pelas bundas a mil ao meu redor, pensei que se não dançasse elas continuariam lá por mais tempo. Era tamanho o amor, ou tamanho o ódio que não hesitaram em me pegar nos braços, me jogar para o alto e gritar meu nome. Exagerando um pouco: não sabia que eu tinha me tornado o novo astro do rock.
No final na festa, eram mais de três horas, eu estava perto do frízer de bebidas, abrindo algumas para os convidados, mas sem beber nada – como já havia dito. Após assaltar os doces, eu já estava alterando, não pelo uso de nada, mas pela minha loucura própria. E fiquei assim até o almoço do dia. Eram quatro horas e acaba a festa, eu fui embora, não consegui dormir, nunca consigo dormir se deitar de madrugada.
Se isso me assustou¿ É claro que não, a sociedade nunca me assunta, se homens formados e ditos sábios tacam bombas uns nos outros, por que meros menores de idade não podem roubar e brigar¿ Quanto às bebidas eu nunca vi ninguém impedir que menores tenham acesso a elas. Mas por fim, mais uma experiência interessante pra minha lista, talvez eu vá à próxima para que for convidado.
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