-
Animado para ir ao curso hoje MP? - perguntou Scire, quando foi lhe buscar em
casa, de carro.
-
Não muito. Faz tempo que não vou à aula e minha vontade ainda não mudou. Gosto
mais dos momentos que passamos na praça tocando violão. Gosto de qualquer momento,
desde que eu não esteja em uma sala de aula.
-
Acho que te entendo. Faremos assim: vamos para a praça hoje novamente. Canere
disse que não iria trabalhar, vou ligar para ele e nós o buscamos em sua casa.
Scire
ligou para a casa de Canere e certificou-se de que este se encontrava na mesma.
Depois entrou no carro, junto com MP e partiram ao encontro dele. A viagem foi
curta, tendo em vista que a cidade é pequena, e logo puderam rumar á praça que
tanto adoravam.
Chegaram.
Canere portava um violão dentro da capa, Scire estava sério, preocupado com os
cuidados com o carro e MP estava risonho - um fato raro nos últimos tempos.
Aquele era o único que sabia manusear o instrumento, os outros dois eram apenas
ouvintes fervorosos. Por isto, Canere sentou-se no centro, cercado pelos outros
dois, e se aprontaram para tocar.
Sentaram-se bem largados ao chão, de forma que não demonstravam respeito algum
por nada. Eram criaturas livres e naquele momento aquilo ficou explícito.
-
Por qual música começamos?
-
Aquela Coisa, do Raul, por favor - sugeriu Scire, pensando em algo que ouvirá
tempos atrás.
Os
dedos velozes de Canere correram pelo violão enquanto a melodia saía,
embelezando a noite. No tempo correto começaram a cantarolar a bela poesia de Raul
e em pouco tempo estavam terminando-a, já não tão calmos como quando começaram.
MP já enlouquecia-se ao som, balançava a cabeça como se aquela fosse a única
coisa que soubesse fazer, Scire admirava as pessoas na rua, e discretamente
movia o corpo, mas cantando alto, assim como os outros dois. Canere encerrou a
canção, sorrindo, e orgulhoso do que haviam feito. Tal sensação há muito não se
apresentava aos três. Aquele dia havia de ser especial.
- Perceberam o que Raul escreveu sobre a
verdade? - questiona MP.
Entreolharam-se
todos.
-
Não - responderam em coro os outros dois.
-
Sobre uma verdade universal, por trás das outras verdades; droga, só eu presto
atenção nas coisas por aqui! - estava agora distraído, olhando para o nada.
-
Não, você é o único que não se diverte por aqui, fica o tempo todo procurando
algo para criticar e pensar. A maioria das pessoas se diverte, sabia?
-
Eu sei que o mundo não para enquanto as pessoas se divertem e a minha diversão
é garantir que ele não precise parar.
-
Acho que entendi... Ele está falando sobre as verdades subjetivas e uma verdade
que dá origem á elas. A verdade universal... - Scire estava distraído enquanto
eles discutiam, pensando no que MP havia falado, mas voltou-se para o grupo
agora, e estava animado.
-
Não vejo sentido nisso. As verdade subjetivas regem o mundo. Mesmo que
existisse uma verdade universal e que vocês conseguissem descobri-la, qual
seria o fundamento? Cada pessoa vê o mundo de uma forma, cada qual vive a vida
relacionado à essa visão e o mundo vira um lugar de mil verdades. Não podemos
mudar a forma como entendemos o mundo.
-
Ou não. Talvez o mundo seja um lugar de mil opiniões e uma verdade. Pense
comigo: cada pessoa tem sua opinião, mas elas todas se parecem em algum ponto. Considerando
este ponto comum, ele tem que ter uma inspiração comum. E não só isso, para que
criemos uma imagem de algo, não só precisamos interiorizar o conhecimento, ele
tem que vir de algum lugar. Não podemos entender uma pedra sem que ela de fato
exista, mesmo que sua existência seja diferente do que vemos. Se, considerada
sua existência, vamos realmente entendê-la como é, é outra história.
-
Sim, concordo. Mas se temos liberdade para entender da maneira que quisermos,
qual a finalidade da verdade universal? Porque não importa a verdade que se
manifesta por trás das coisas, pois o meio de atingi-la seria extinguir a
percepção do homem sobre o mundo. E não se pode atingir este ponto simplesmente
analisando as semelhanças nas opiniões.
Scire
se calou. O homem que antes parecia cheio de razão se calou. Junto com ele as
esperanças se calaram e a ideia que surgirá agora era passado.
-Vocês
não entendem mesmo? - perguntou MP, virando-se para os dois colegas. Não veem o
segredo da verdade universal? Qualquer um pode entendê-la, assim como muitos fizeram,
e qualquer um pode ignorá-la, mas poucos são os que a identificam com a
intenção de entender o ser humano e menos ainda são os que a atingem. Pensem um
pouco: se existe uma realidade que rege tudo que o ser humano acredita, então
tudo que nós conhecemos e que é verdade está nesta verdade, e tudo que não, foi
criação do homem. O segredo do que somos e do que fizemos com o mundo está
nesta verdade universal. Tendo em vista que o mundo antes de nós é A e que
depois passou a ser B, B menos A é igual a tudo aquilo que nós criamos, e eu não
me refiro a nada que envolva partículas.
A priori quero dizer todas as relações humanas que extrapolam o físico.
O segredo é pensar em tudo aquilo que sobrevive sem depender de nós. Pensem: o
que seria extinguido com a nossa extinção? O que sobrar compõe a verdade
universal.
Silêncio
novamente. Os três estavam pensando sobre o que foi dito.
-
É loucura iniciar uma revolta sem uma causa, certo? - perguntou Scire.
-
Certo - responderam em coro.
-
Acho que concordamos que agora temos uma causa...
- Só nos falta um nome - disse MP, enquanto dedilhava o violão produzindo sons sem sentido.
- Só nos falta um nome - disse MP, enquanto dedilhava o violão produzindo sons sem sentido.
Matheus Henrique
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