sexta-feira, 10 de agosto de 2012

MUTARE - 5º TEXTO


                - Animado para ir ao curso hoje MP? - perguntou Scire, quando foi lhe buscar em casa, de carro.
                - Não muito. Faz tempo que não vou à aula e minha vontade ainda não mudou. Gosto mais dos momentos que passamos na praça tocando violão. Gosto de qualquer momento, desde que eu não esteja em uma sala de aula.
                - Acho que te entendo. Faremos assim: vamos para a praça hoje novamente. Canere disse que não iria trabalhar, vou ligar para ele e nós o buscamos em sua casa.
                Scire ligou para a casa de Canere e certificou-se de que este se encontrava na mesma. Depois entrou no carro, junto com MP e partiram ao encontro dele. A viagem foi curta, tendo em vista que a cidade é pequena, e logo puderam rumar á praça que tanto adoravam.
                Chegaram. Canere portava um violão dentro da capa, Scire estava sério, preocupado com os cuidados com o carro e MP estava risonho - um fato raro nos últimos tempos. Aquele era o único que sabia manusear o instrumento, os outros dois eram apenas ouvintes fervorosos. Por isto, Canere sentou-se no centro, cercado pelos outros dois,  e se aprontaram para tocar. Sentaram-se bem largados ao chão, de forma que não demonstravam respeito algum por nada. Eram criaturas livres e naquele momento aquilo ficou explícito.
                - Por qual música começamos?
                - Aquela Coisa, do Raul, por favor - sugeriu Scire, pensando em algo que ouvirá tempos atrás.
                Os dedos velozes de Canere correram pelo violão enquanto a melodia saía, embelezando a noite. No tempo correto começaram a cantarolar a bela poesia de Raul e em pouco tempo estavam terminando-a, já não tão calmos como quando começaram. MP já enlouquecia-se ao som, balançava a cabeça como se aquela fosse a única coisa que soubesse fazer, Scire admirava as pessoas na rua, e discretamente movia o corpo, mas cantando alto, assim como os outros dois. Canere encerrou a canção, sorrindo, e orgulhoso do que haviam feito. Tal sensação há muito não se apresentava aos três. Aquele dia havia de ser especial.
                -  Perceberam o que Raul escreveu sobre a verdade? - questiona MP.
                Entreolharam-se todos.
                - Não - responderam em coro os outros dois.
                - Sobre uma verdade universal, por trás das outras verdades; droga, só eu presto atenção nas coisas por aqui! - estava agora distraído, olhando para o nada.
                - Não, você é o único que não se diverte por aqui, fica o tempo todo procurando algo para criticar e pensar. A maioria das pessoas se diverte, sabia?
                - Eu sei que o mundo não para enquanto as pessoas se divertem e a minha diversão é garantir que ele não precise parar.
                - Acho que entendi... Ele está falando sobre as verdades subjetivas e uma verdade que dá origem á elas. A verdade universal... - Scire estava distraído enquanto eles discutiam, pensando no que MP havia falado, mas voltou-se para o grupo agora, e estava animado.
                - Não vejo sentido nisso. As verdade subjetivas regem o mundo. Mesmo que existisse uma verdade universal e que vocês conseguissem descobri-la, qual seria o fundamento? Cada pessoa vê o mundo de uma forma, cada qual vive a vida relacionado à essa visão e o mundo vira um lugar de mil verdades. Não podemos mudar a forma como entendemos o mundo.
                - Ou não. Talvez o mundo seja um lugar de mil opiniões e uma verdade. Pense comigo: cada pessoa tem sua opinião, mas elas todas se parecem em algum ponto. Considerando este ponto comum, ele tem que ter uma inspiração comum. E não só isso, para que criemos uma imagem de algo, não só precisamos interiorizar o conhecimento, ele tem que vir de algum lugar. Não podemos entender uma pedra sem que ela de fato exista, mesmo que sua existência seja diferente do que vemos. Se, considerada sua existência, vamos realmente entendê-la como é, é outra história.
                - Sim, concordo. Mas se temos liberdade para entender da maneira que quisermos, qual a finalidade da verdade universal? Porque não importa a verdade que se manifesta por trás das coisas, pois o meio de atingi-la seria extinguir a percepção do homem sobre o mundo. E não se pode atingir este ponto simplesmente analisando as semelhanças nas opiniões.
                Scire se calou. O homem que antes parecia cheio de razão se calou. Junto com ele as esperanças se calaram e a ideia que surgirá agora era passado.
                -Vocês não entendem mesmo? - perguntou MP, virando-se para os dois colegas. Não veem o segredo da verdade universal? Qualquer um pode entendê-la, assim como muitos fizeram, e qualquer um pode ignorá-la, mas poucos são os que a identificam com a intenção de entender o ser humano e menos ainda são os que a atingem. Pensem um pouco: se existe uma realidade que rege tudo que o ser humano acredita, então tudo que nós conhecemos e que é verdade está nesta verdade, e tudo que não, foi criação do homem. O segredo do que somos e do que fizemos com o mundo está nesta verdade universal. Tendo em vista que o mundo antes de nós é A e que depois passou a ser B, B menos A é igual a tudo aquilo que nós criamos, e eu não me refiro a nada que envolva partículas.  A priori quero dizer todas as relações humanas que extrapolam o físico. O segredo é pensar em tudo aquilo que sobrevive sem depender de nós. Pensem: o que seria extinguido com a nossa extinção? O que sobrar compõe a verdade universal.
                Silêncio novamente. Os três estavam pensando sobre o que foi dito.
                - É loucura iniciar uma revolta sem uma causa, certo? - perguntou Scire.
                - Certo - responderam em coro.
                - Acho que concordamos que agora temos uma causa...
                - Só nos falta um nome - disse MP, enquanto dedilhava o violão produzindo sons sem sentido.
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Matheus Henrique

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