O capitão Moke avisa a todos no barco que a tempestade está se intensificando, começa então a ladainha dos devotos marujos, a mulher, porém continua a sua história, como se não estivesse acontecendo nada. O bebê estava no seu colo, dormia o tempo todo desde o começo da tempestade e não queria acordar tão cedo. As crianças fixas com os olhos nos lábios da mulher, sonhando com outro mundo, mesmo que não entendessem tudo aquilo que era dito. O drogado agora tinha ganhado um companheiro, o segundo drogado que após encontrar a droga escondida no porão do navio dentro de um barril vermelho feito de pau-brasil resolvera ouvir a história e dividir com seu outro amigo o fruto da caça. A mulher continuou, com muita pertinência e convicção:
“A passagem era extremamente pequena, um homem inteiro não poderia entrar ali sem se agachar, dois homens, julgados corajosos por uns e loucos por outros aceitam o desafio de entrar na fenda e descobrir o que havia por lá. Os religiosos e fanáticos iniciam uma campanha para interromper a viajem até a fenda, com o argumento de que se abrirem aquela fenda entrariam na casa de deus e segundo as suas antigas escrituras isso era errado, ao menos naquelas condições, diziam lá: “Aquele que ousar adentrar a casa do divino terá sua cabeça cortada, sua alma entregue na loja de corpos, seus pensamentos capturados e exibidos na praça dos anjos e todo o seu povo será exterminado por um feixe de luz amarela vindo da casa divina”. Assim conta o Livro do homem Vistck, no seu terceiro capítulo dedicado exclusivamente a torturas e outras provas do imenso amor, perdão e compaixão de deus pelo seu povo.
Vale ressaltar que eles acreditavam que deus era único e que segundo muitos analistas daquela sociedade, a religião tinha superado a biotecnologia em termos de lucro há muitos anos. Mas nada deteve o poder do avanço da ciência, os gloriosos homens foram até a fenda e lá entraram. No planeta todos estavam apreensivos para saber o que iria acontecer, seus caixões já tinham sido encomendados, já eram pensados os textos das homenagens póstumas e agora não se ouvia mais ninguém chamando aqueles homens de loucos. Os religiosos já tinham mudado o seu discurso e falaram que eles chegariam ao lado de deus e esse teria compaixão de todos e os fofoqueiros agora só lembravam-se de como eles eram corajosos e do grande passo que eles tentaram dar. Mas infelizmente eles não morreram, voltaram cegos, sem movimentos praticamente e surdos, mas tinham toda a sabedoria do mundo e boas vozes para contar a verdade. Toda a vitalidade daqueles homens tinha sido sugada deles por eles mesmos para “trocarem” por mais tempos vivos.
Eles não sabiam mais seus nomes e suas histórias, mas sabiam a resposta para tudo e eram coerentes em tudo. Eram os heróis dos homens Vistck. Diziam eles que na fenda estava contida um pequeno pedaço de metal, parecia um conjunto de circuitos eletrônicos de precisão subatômica. Ao encostarem na peça, um impulso elétrico deu a eles todas as respostas e todos os poderes possíveis no mundo, exceto a imortalidade.
Segundo eles o mundo tinha sido criado, projetado e executado por uma raça super inteligente em uma simulação computacional, o que justificava que sendo meros circuitos de uma experiência bizarra era melhor se desapegarem das perguntas e simplesmente aceitarem a sua condição limitada. Isso causou ódio em quase toda a população, ondas de suicídio se espalharam, poucos dez por certo restaram no universo. Esses então fizeram todas as perguntas possíveis e imagináveis aos homens, e ganharam a verdade em troca, escreveram tudo o que ouviram e deixaram para as próximas gerações...”
Ela é interrompida pelo capitão que dizia:
- Homens a bordo, parece que esse é o nosso fim. Se apeguem as suas vidas, se arrependam dos seus pecados e quem quiser, podem tomar uns drinks comigo!
A mulher interveio:
- Não podemos desistir assim tão fácil, temos crianças a bordo, o senhor é um fraco por acaso¿
Ele se irritou, ficou frente a frente com a mulher, e com força a jogou contra a parede. Moke tinha perdido uma mão há anos atrás, quando ainda era um jovem, nunca contou para ninguém o que tinha acontecido naquele dia, mas agora não tinha mais motivos para esconder a verdade. No lugar da sua mão estava uma prótese no formato de uma lança muito bem afiada. Com ela na parede, sacou a sua lança – ou mão – e disse:
- Como a senhora acha que eu consegui isso¿ Sendo um fraco¿ Eu lutei muito, sabia¿ Nunca quis estar aqui. Respeite-me ou não terei compaixão com a senhora por ser mulher e a jogarei no mar como faziam meus avôs.
Ela se calou, olhou para a criança, segurou o crucifixo que trazia no peito e disse em voz reconfortante para a criança ainda sonolenta:
- Eu vou te proteger meu filho, eu juro. Ninguém, nem nada te farão mal.
Agora com lágrimas nos olhos a mulher continuou, engolindo o choro, com uma expressão nítida de medo, mas com a coragem de poucos. Se fosse a sua morte, ao menos essa história ela devia contar para aquelas crianças. Olhou ao redor, recordou partes da sua vida, justamente aquelas que queria esquecer, viu os drogados, os marujos pecadores se apegando aos seus deuses, o capitão cético aceitando seu fim e contando suas glórias por morrer no mar.
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