terça-feira, 28 de agosto de 2012

MUTARE - 9º TEXTO


                Os cinco estavam no porão da casa de Scire. Estavam distribuídos pelo cômodo, cada qual bem largado. Naquela tarde, assim como nas últimas, MP, Canere, Scire e Magnus bebiam uma garrafa de vodka barata e fumavam um cigarro enquanto Operiet comia um chocolate apenas. Os quatro que bebiam estavam já um pouco alterados, pois estavam já há algum tempo bebendo.
                Estavam no porão desde as duas da tarde, sem conversar nada de produtivo. Já passavam das sete. MP convocou a reunião no dia anterior e a marcou para aquele dia, pois queria falar com todos os geniosinhos, mas sua prioridade era naquele tempo apenas embebedar-se.
                A sala estava carregada de uma fumaça pesada que constrangia até mesmo os pulmões de Operiet, que não fumava. Ao fundo tocava um rock tranquilo, bem clássico. Destacava-se o som de The Doors,mas não era a única banda que tocava no pequeno aparelho de som.
                - Afinal de contas, o que estamos fazendo aqui? - perguntou Operiet, que ainda são, pode se lembrar do motivo de ali estarem.
                - Verdade. Me desculpem "senhores" - bêbado MP virava um piadista - vim aqui para lhes falar sobre uma conversa que tive dias atrás com uma garota.
                - Você poderia explanar melhor suas ideias? Quando você diz garota, você quer dizer um ser humano do sexo feminino ou é apenas mais uma metáfora? - o outro piadista era Canere, que não perdia a oportunidade de maximizar tudo aquilo que achava estranho em MP.
                - Um ser humano do sexo feminino...
                - E quando você conversou com uma garota? - perguntaram em coro.
                - Continuando. Eu estava no ponto de ônibus e encontrei com uma garota. Ela me abordou e perguntou algumas coisas sobre mim e principalmente sobre nós cinco.
                - O que ela sabia sobre nós? - Scire perguntou enquanto se levantava, com o cerebelo evidentemente abalado.
                - Nada de mais. Disse apenas que sabia sobre as nossas reuniões e que só não sabia o que planejávamos. Ela disse que nossa pequena cidade esconde alguns mistérios, mas acho que ela exagerou nesta parte.
                - Não importa o que você acha. Foi apenas isso que ela disse? Não consegui captar o sentido desta conversa.
                - Não foi só isso. Ela disse que teceria maiores comentários se eu aceitasse levá-la para comer alguma coisa um dia desses. E por isto estou conversando com vocês. Vim informar que decidi saber mais sobre o assunto e que irei me expor à esta intimidade, e também irei expor vocês.
                - É aquela garota que nós vimos na rua tempos atrás, MP? - perguntou Operiet, ignorando o fato observado por todos de que MP havia sido convidado para um lanche por uma garota.
                - Ela mesmo...
                Todos se calaram, embora ainda houvessem piadas escondidas nas cabeças dos garotos. Fora as piadas, não havia o que falar, pois MP não veio pedir permissão ou conselhos de seus amigos, veio apenas informar uma decisão que tomou. Restou a todos procurar saber o máximo sobre o assunto já que uma argumentação só poderia favorecer MP, o que melhor trabalhava com palavras. Mas eles não quiseram saber mais, confiavam em MP.
                Continuaram nas mesma inércia que estavam desde as duas horas. A partir das dez horas os garotos começaram a ir embora. Primeiro Operiet, depois Canere. Por último foram juntos MP e Magnus, pois ambos eram vizinhos. Decidiram todos fazer o percurso até as suas respectivas casas a pé. Scire retirou-se, trancou o porão e foi para sua casa.
                - Operiet me contou sobre a garota e sobre o acontecido na rua. A maneira como você a olhou, contou-me detalhadamente - disse Magnus, depois de uma pequena caminhada em silêncio, com cada qual imerso em seus próprios pensamentos, tanto ele quanto, principalmente, MP.
                - Porque não me disse isto antes? Que ele havia lha contado? Eu já estava esperando esta conversa, mas ela nunca acontecia - MP estava minimamente concentrado na conversa, o que era uma coisa boa em conversas com ele.
                - Você já sabia? Esquece... Enfim, o que sabe sobre esta garota?
                - Não muito, ela apenas veio conversar comigo, dizendo que sabia sobre mim. Eu não a conheço.
                - Ela lhe lembra a Tristitia, não é?
                - Parece uma versão melhorada dela. Sua casca toda simples esconde um interior de complexidade infindável...
                - Eu imaginei. E o que você sentiu quando ela veio conversar com você no ponto de ônibus?
                - Nada de mais. Tratei-a como trato qualquer pessoa.
                - Sei, com arrogância, sarcasmo e apatia. Mas eu sei que com ela foi diferente. O que você sentiu? E não minta, eu sei quando você mente.
                MP agora olhava para frente e encarava o vazio. Seus olhos estavam profundos e ele parecia estar vagando pelas partes mais ocultas de sua mente. Passou os braços para trás do corpo e segurou o punho esquerdo com a mão direita. Estava imerso em seus pensamentos e todos os movimentos que fazia eram de responsabilidade do subconsciente. Aos poucos começou a abrir a boca e tecer os primeiros comentários, sem pensar no que falava.
                - Não sei bem... Quando a vi senti uma coisa que há muito não sinto. Fiquei paralisado, sem reação. Eu só conseguia olhar para ela e admirar seu jeito de se comportar. Ela se locomovia de uma forma tão parecida com a Tristitia... E seu perfume, ah seu perfume. Não pensei nada naquele momento. E quando ela me procurou para conversar, neste último encontro, eu tentei, juro que tentei, tratá-la como trato qualquer outra pessoa, mas fracassei. Quanto mais ela falava, mais fascinado eu ficava. Não entendi até agora o que aconteceu e eu já perdi muitas horas pensando nisso...
                - Eu sabia. Felizmente você ainda guarda vestígios do hominídeo que você um dia foi MP. É bom saber que eu não te perdi ainda e que meu primo, aquele garotinho que cresceu comigo, ainda mora ai neste peito conturbado. Fico feliz por você.
                Ambos voltaram a caminhar em silêncio, e assim foi feito até a casa de cada um. MP manteve aquela expressão distante até chegar na porta de sua casa. Magnus por vezes o olhava, mas deixou-o sozinho com seus pensamentos. Toda vez que olhava para MP, Magnus sorria discretamente.
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Matheus Henrique

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

MUTARE - 6º TEXTO (REPOSTAGEM)


                - Você e o MP não fumam, não é Operiet?
                - Claro que não. Vocês que fumam têm os dentes amarelos e olheiras. Preciso do meu sorriso e dos meus olhos. Me garantem bons finais de semana...
                - Eu nunca disse que não fumava Canere.
                - Então você fuma?
                - Não fumava até hoje. Ascenda um cigarro para mim, por favor.
                Canere pegou o cigarro e o ascendeu, como pediu MP.  MP pegou-o e colocou na boca, ainda sem jeito. Deu logo uma longa tragada e tossiu toda a fumaça fora, mas prosseguiu até entender que a fumaça deveria atingir seus pulmões. Na primeira vez que o fez sua cabeça deu um spin  e ele se sentiu meio morto. O gosto amargo que desceu subiu já suave e atingiu sua boca enojando-o.
                - Porque vocês fumam isso? - perguntou, enfatizando seu sarcasmo com uma expressão engraçada que fez todos os quatro rirem.
                - Você também não deveria estar fumando MP. De todos, eu e você somos os mais novos e deveríamos ser mais responsáveis que esse bando de corpos sem alma.
                - Ainda não entendeu Operiet? Em se tratando de alma, o MP é o que menos sabe sobre o assunto. E olha que ele conversa sobre quase tudo, mas pergunte a ele o que ele sente, que não tenha relação com os pensamentos. Pergunte a ele o que acontece em seu interior quando a cabeça se desliga.
                - Boa pergunta MP. Todos nós já tivemos amores, já sofremos, mas continuamos saindo e dando a cara a tapa. Todos nos decepcionamos com diversas coisas da vida, mas nenhum de nós demonstrou apatia. Deixamos a todo momento claro o que sentimos e estamos aqui lutando por um ideal. Discutimos ideias e planejamos ataques. Você, o garoto que deu a ideia de nos organizarmos, na flor dos dezoito anos, faz alguns meses que só vem aqui para beber, agora fumar, e criticar tudo que falamos. O que têm passado por esta sua cabeça?
                Na sala, além de MP, estavam Magnus, Scire, Canere e Operiet. Com exceção do último, todos seguravam uma garrafa de vinho em uma das mãos e um cigarro na outra. Todos, no instante em que Operiet encerrou a pergunta, repousaram o cigarro no cinzeiro e colocaram a garrafa no chão. Parecia um gesto combinado. Olharam para MP, que no momento olhava para o chão, fixamente. Segundos se passaram em silêncio, até que ele se levantou, pegou sua garrafa de vinho e saiu, passando a passos curtos e lentos, por todos que ali se encontravam, sem dizer uma palavra. Todos o acompanharam com o olhar, sem reação; sem saber o que havia acontecido.
                - Deixe que eu o acompanho desta vez. Incrível alguém da idade dele que não pode andar sozinho pelas ruas... - disse Operiet, sentindo-se um pouco culpado pelo acontecido.
                Logo o alcançou. Ele ainda carregava a garrafa de vinho que levou da sala, mas bebia a grandes goles e sua face nem por pouco evidenciava pesar.
                - Nós não sabemos mais quem você é. Nem ao menos sabemos o que te deixou assim. Você não conversa mais, nem mesmo com Magnus... Seu primo, que foi seu grande amigo, hoje é um completo estranho para você. Todos nós somos.
                - Não é verdade. Vocês são importantes para mim - disse, mas sem alterar o olhar, que se fixava na rua, sem demonstrar que o que falava era sincero.
                - Por favor, me diga o que aconteceu.
                MP parou, de súbito, e ficou olhando fixamente o outro lado da rua, assustado. Lá passava uma garota que em muito se parecia com ele. Ela andava despreocupada, com a calça rasgada e uma blusa do Nirvana, mas mantinha a mágica feminina que inundava o ar. Embora seu estilo tenha chamado sua atenção, o que mais lhe fez perder o foco foi a maneira como ela se coportava. Estava com um fone de ouvido e saltitava. Por vezes atingia as folhas das árvores, por vezes olhava para os pés e andava em zigue-zague. Seu cabelo, negro, esvoaçava e, embora aquilo lhe parecesse impossível, ele podia sentir seu perfume dali. Cheirava a erva doce e lhe lembrava de sua infância, embebedando-o de lembranças. Ela tinha alguma coisa que ele não podia explicar, nem ao menos entender. Algo parecido com alegria.
                - Gostou daquela garota?
                - Não exatamente, ela só prendeu minha atenção.
                - Vá conversar com ela...
                - Não é necessário - disse, virando-se para a direção a qual percorria antes do ocorrido.
                - Quem diria, o senhor mestre da argumentação, que sempre que fala faz parar alguém, sempre que abre a boca conquista uma nova mente, sem jeito de falar com uma garota.
                - Quem diria então, o senhor da sedução, que sempre que sai conquista um novo corpo, que sempre que conversa com uma garota destrói uma vida, me ensinando a portar-me frente a tal situação.
                Uma pausa.
                - Sua sinceridade e seu sarcasmo... Coisas que nenhum de nós tivemos a felicidade de conhecer enquanto ainda éramos garotos e não nos importávamos com você. O que uma visão do futuro não pode mudar...
                Operiet virou-se e tomou o caminho contrário, visando o porão da casa de Scire. MP continuou em seu caminho, mas não parecia mais tão apático. Duas sensações lhe reviravam o pensamento, periodicamente. Por vezes pensava na garota e no que sentira ao vê-la e logo perdia o raciocínio e vagava sem rumo, depois as palavras de Operiet lhe tomavam a mente e novamente sua expressão voltava ao que era. Operiet era péssimo com as palavras, mas MP era um bom entendedor e conseguia ver o que ele sentia ao pronunciar cada uma delas. No geral ele podia ver isso em qualquer pessoa com quem conversava. Ele olhava além do que os olhos lhe apresentavam, sempre.
                MP decidiu voltar para casa, mesmo bêbado e assim o fez.
                Operiet chegou no porão e encontrou todos os outros bêbados também, jogados ao chão. Mas estavam conscientes suficiente para perceber que ele voltara sem MP.
                - Onde está o novo maluco?
                - Ficou pelo caminho. Ele disse coisas que me ofenderam, mas o deixei por outro motivo:  percebi que ele precisava pensar. Ultimamente ele tem precisado muito de tempos sozinho e nós não lhe concedemos isso. Estamos sugando toda produtividade dele e esquecendo de deixá-lo se recuperar.
                - Acha que ele pode fazer alguma besteira sozinho? - disse Magnus, que logo retomou a pose ao perceber que o primo não havia chegado.
                - De que tipo? - perguntou Scire.
                - Não sei. Acham que ele pode estar sofrendo de depressão.
                - Mas é claro que ele está. Todos nós estamos depressivos. Estamos em um porão imundo, bebendo vinho barato e fumando cigarros de grama. Por favor, sejam sinceros e me digam se algum de vocês está bem. Nenhum de nós está, mas todos temos motivos para acordar todos os dias. Não somos suicidas. Ele não se deixaria levar por este sentimento, assim como nós - Canere gaguejava, tomado pelo álcool, mas se fez parecer certo, com um tom de voz que transmitisse exatamente o que pensava.
                - Será que MP pensa dessa forma?
                Ninguém disse nada. Todos se olhavam, sem resposta. Depois de um tempo pararam de pensar na questão e cada qual começou a se perder em sua loucura alcoólica e foram, aos poucos, apagando-se no chão. Com exceção de Operiet que não conseguiu tirar da cabeça a imagem de MP observando aquela garota caminhar. Ele viu, naquele rosto gasto pelo álcool, o garoto que conhecera, ainda no primeiro ano do ensino médio. O sorriso que antes vinha com facilidade, quase se esboçou no rosto daquele novo punk. Sua calça rasgada e suja, sua camisa que a priori era branca, mas que já estava amarelada, e seu cabelo que não era penteado fazia dias deram lugar ao garoto que ia à escola todo engomado, parecendo um garotinho rico.
                Operiet rezou naquela noite  - para o acaso, já que este também era ateu -para que devolvesse ao MP a vida que ele mesmo jogou fora. Não sabia o que lhe havia acontecido e se sentia culpado por isso. Já havia perdido as esperanças de melhora, mas aquele olhar as reavivou. A faísca de felicidade brilhou no olhar de MP e Operiet se alegrava por isto, martirizando-se apenas por não saber o motivo.
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Matheus Henrique

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MUTARE - 8º TEXTO


                - Não sei se acredito...
                - Não tem porque acreditar. É uma coisa que vem de dentro. As pessoas que como eu acreditam não tem um motivo racional para o fazer. Simplesmente o fazem. Deus não é algo que eu possa lhe explicar. Mas admiro este seu questionamento.
                - Mas você me disse que a razão deveria estar acima de todas as coisas.
                - Eu disse também que nós não poderemos explicar todos os mistérios que nos fossem apresentados.
                - Mas só porque não conseguimos responder uma pergunta não quer dizer que ela não tenha uma resposta, ou que precisemos responder  qualquer coisa para preencher este vazio. O senhor está errado!
                Eventus olhava MP e estava um pouco admirado. O garotinho que a muito conhecera havia crescido e completava naquele dia quinze anos. Não era um homem ainda, mas estava no caminho.
                Durante todos estes anos os dois se reuniam de tempos em tempos e discutiam sobre assuntos que variavam  bastante. Falavam sobre política, filosofia, romances, futebol, alegrias e tristezas e falavam principalmente sobre a vida. O garotinho que não tinha quase nenhuma experiência de vida aos poucos foi agregando o conhecimento do sábio homem e construindo sua base de pensamento. Não eram filósofos, nenhum dos dois, eram loucos apenas, que viviam a vagar pelas ruas conversando conversas sem sentido, almejando algum dia mudar alguma coisa em suas vidas. A vida de MP não estava ainda destruída, mas Eventus lhe garantira que era só questão de tempo para que isto acontecesse. E o garoto tomou a responsabilidade pelo futuro escrito por seu mentor e já foi se recuperando de um perda que não sofrera.
                - Esta será nossa última reunião.
                - Mas... porque? Tem dado tão certo, minha cabeça tem funcionado tão bem. O que aconteceu?
                - Estou partindo em um última jornada. Preciso descobrir algumas coisas e tenho confiança de que agora você está bem amparado.
                - Mas, eu não sei de nada ainda, preciso do senhor. Que belo presente de aniversário... - disse com lágrimas nos olhos, olhando para seus pés.
                - Por isto também. Lhe dei a base teórica. Agora viva sua vida da forma que quiser, mas nunca se esqueça das coisas que lhe ensinei. Este é o melhor presente que alguém poderia lhe dar, acredite.
                - Tudo bem, eu confio no senhor. Sentirei saudades. O senhor preencheu em meu peito o vazio que a falta do meu pai criou durante minha infância.
                - Você preencheu este vazio, assim como você também o criou. Não culpe os outros pelas coisas boas ou ruins que acontecem em sua vida. Você é o único responsável por elas. Abraço meu nobre garotinho. Continue desta forma e irá longe - disse virando-se e tomando um beco que parecia não ter fim.
                Ambos estavam parados em uma encruzilhada daquela pequena cidade. MP viu seu mentor partir e não pensava em nada, apenas observava. Depois de um tempo virou-se e começou a caminhar de volta para casa, entristecido.
                Meses se passaram e MP viveu sua vida como um garoto normal. A partida de Eventus criou um vazio no peito de MP, uma solidão inexplicável. Ele não mais conversava sobre aqueles assuntos, pois todos que o cercavam eram de uma filosofia muito simplista e ele gostava apenas do complicado. Passou triste todo este tempo até que conheceu, na escola, uma garota.
                Seu nome era Tristitia. Tinha o cabelo da cor de ouro e os olhos castanhos. Mas não era um ouro comum, era um ouro que hipnotizava MP a cada vez que a via. E seus olhos eram poços de uma simplicidade que por tanto tempo ele odiou, mas que agora o trazia de volta a vida. Ela era simples, modesta e não era culta. Falava calmamente, quase cantando, e inundava os ouvidos de MP.
                Eles se conheceram em sala de aula e passaram por todos os processos sociais possíveis. Foram colegas de trabalhos e exercícios, logo se tornaram amigos e passavam muito tempo juntos. Em determinado momento MP percebeu que estava apaixonado e que aquela garota era o centro de seu universo. Esqueceu, por ela, a filosofia, e tudo que odiava no mundo. Seu mundo ganhou cores finalmente.
                Isto tudo não ocorreu em horas. Foram meses de vivência que aos poucos foram moldando seu coração, por hora quebrado, e preenchendo vazios que não paravam de surgir.
                Mas o conto de fadas durou pouco. MP, embora agora visse o mundo de outra forma, manteve seu temperamento explosivo e continuou a não pensar no que fazia ou falava. Em pouco tempo amando-a e sofrendo por isto, pela impossibilidade que ela por vezes criava, e por vezes desmanchava, ele enlouqueceu. Enlouqueceu em sua loucura normal, há tanto esquecida por ele, mas incompreendida por ela. Ele não mudou e este foi o caos no relacionamento. Ele não conseguia ser simples como ela, era excêntrico e toda sua excentricidade explodiu em pouco tempo. A filosofia falou mais alto em seu peito.
                Ela não podia lidar com seus ataques de loucura, suas ofensas sem motivo e depois seus pedidos de desculpa que poderiam fazer a morte chorar. Ele aos poucos foi tornando-se um cavalheiro da destruição. Por onde passava causava tristeza, mas tinha o poder de transformá-la em alegria e amor, apenas remediando o problema, sem de fato curá-lo. Cumpre ressaltar que um coração partido não se concerta com palavras. Por tudo isto ela se afastou, aos poucos, deixando-o sozinho com seus pensamentos. E nem mesmo eles o quiseram de volta. Seu mundo acabou, sua filosofia estava fraca, sem fundamento, sua inteligência estava vencida e seu coração estava partido. Não sobrou nada daquele MP feliz, que por pouco tempo existiu.
                Ele vagou pelo mundo, por mais alguns meses, como um zumbi. Concordava com tudo, fazia o que lhe era pedido, ia para onde todos iam e só procurava um tempo de descanso para chorar o passado perdido.
                Encontrou, em pouco tempo, apoio no álcool. Era mais um adolescente vencido pela mídia e entregue ao fracasso das drogas lícitas. O garoto superdotado, que nasceu em berço de feno, criado por pais simples e pobres, jogava naquele tempo todo um futuro fora. Não era mais um gênio, não era mais filósofo, nem era mais humano. Era um corpo, que vagava sozinho, rabiscando nas paredes da vida pedidos de socorro.
                Tudo que um dia Eventus lhe ensinou, naquele tempo, se resumia a nada. Ele se recuperou da perda antes que ela chegasse e quando ela chegou não havia nada que ele pudesse fazer. Nãou houve resistência ou recuperação. Só o que havia era um abismo escuro entre ele e seu futuro.

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Matheus Henrique

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

AQUELES QUINZE ANOS

E as convenções sociais continuam! Dessa vez quero relatar uma festa de 15 anos, se é que podemos chamar algo desse gabarito de festa, é preferível chamar de evento – tanto por ser mais chique, quanto pelo gasto avantajado de um evento como esse. Retirando das minhas frescas memórias, lembro-me de um desses dias.

Era um sábado, a festa estava marcada para começar lá pras nove, como diria minha mãe. Cheguei nove e meia, ainda eram poucos os presentes, mas com o tempo o número aumentou. Refrigerante, cerveja, salgados, bombons, bolo e um pouco mais; antes que vocês perguntem: não, eu não bebi, não, eu não me entupi de comer, não, eu não morri por lá. O ambiente era inóspito para um nerd, nada com que pudesse fazer ligações, exceto a belíssima mesa de som, o computador e os lasers... Só um canhão de laser já faria brotar lágrimas nos olhos de muitos, eram tão belos aqueles pixels. E eu estava lá, sentei-me em uma mesa atrativa, pouco tinha acabado de me alimentar e me vem um indivíduo, ou melhor, três amigas que me pedem para terminar de renderizar um vídeo, ou na palavra delas: passar pro media player. O que eu podia fazer contra esse pedido¿ Aceitar era o que me restava! Mas nunca é apenas isso, né¿ Ser o carinha da informática significa que você deve realizar todo tipo de serviço: conectar o DVD novo (comprado nas Casas Bahia) da sua tia querida, configurar o roteador da empresa do seu amigo sem ganhar nada, formatar o PC da sua prima, saber sobre desenvolvimento web pra fazer aquele site “simplesinho de dois minutos” que o miserável do dono da padaria vai te pedir, isso é claro sem que você receba o devido valor – tanto que se receber metade do seu preço já e muito, afinal “você só ficou o dia todo na frente desse computador ai”-, podem te pedir também para arrumar aquela fiação que queimou, para salvar o banco de dados que acidentalmente uma criança apagou, ou a mais famosa de todas: sempre, e isso é regra, vão te pedir pra colocar Windows sete em um k6.

Lá estava eu, sentado atrás do palco, sonhando com um mundo em que eu não seja tirado de uma festa pra fazer trabalho sujo! Mas me deram um tempo, eu me esforcei pra entregar trinta minutos depois – e olha que o computador era uma merda na renderização (espero que os leitores não se importem com os palavrões, eles são tão comuns no dia a dia que nem tenho por que censurá-los aqui, e querido estudante, não use palavrões no Enem, caso queira passar uma mensagem de amizade para o governo piche o congresso, brigue com o presidente ou pior: coloque a sua mente pra funcionar). Os convidados passavam, olhavam para o palco e me viam sentado, editando um vídeo, na frente de um notebook – isso zerava as minhas chances de pegar alguém, mas ora vias, já eram bem baixas (eu estou rindo de mim mesmo, sou um gênio ou um retardado¿ Difícil escolher, mas eu prefiro a genialidade).

Terminado o trabalho sujo, voltei para as mesas, a minha mesa, o meu copo e a minha vista já tinham sido ocupadas por outros seres humanos. Lamentável! Eram pouco mais de onze horas e a festa começa a dar matéria: ocorre o roubo de um celular. A pergunta é: se apenas haviam convidados da família, dos amigos e dos colegas lá dentro, quem foi o ladrão e traíra ao mesmo tempo em que cometeu o ato¿ Mas nem isso era o bastante, a garota que teve o celular furtado, na sua posição de reclamona e filhinha de papai (ou mamãe) fez questão de ligar para sua querida e amada mãe para reclamar o ocorrido. Essa nobre senhora, que como é de se deduzir é como a filha, ameaça chamar a polícia, a mãe da debutante faz de tudo para impedir, convenhamos: o que vale mais; um celular ou a festa de quinze anos (que só ocorre uma vez na vida) de uma garota¿ Acertou quem disse a festa, mas nem todas as pessoas entendem isso. Por fim, os tiras não chegaram à festa.

Mas nada pode deter o azar, ele é sistemático. A debutante dividia suas lágrimas com o quase fiasco da festa e com as belas homenagens das suas amigas. Então, como que por alegria da mãe citada anteriormente, o namorado da garota entra em um briga, o motivo era um simples mal entendido entre amigos – que hoje nem devem ser mais amigos. Vários homens juntam em um só, o pau come solto fora da festa – a briga passou do salão, pro banheiro, pra escadaria e depois pra rua – enquanto outros “paus” endurecem dentro do salão. Estou duvidando da índole dos convidados agora, e com razão.

Quando eram duas horas, os barracos já tinham acabado e outros celulares tinham evaporado, mas idem. Enquanto tudo isso rolava, meus colegas e amigos tentavam tirar o nerd que habita a minha alma e me deixar doidão, é... eu não lembro bem se conseguiram. Sei que não bebi, sei que me colocaram na pista de dança, mas eu não dancei – embora a motivação que foi dada pelas bundas a mil ao meu redor, pensei que se não dançasse elas continuariam lá por mais tempo. Era tamanho o amor, ou tamanho o ódio que não hesitaram em me pegar nos braços, me jogar para o alto e gritar meu nome. Exagerando um pouco: não sabia que eu tinha me tornado o novo astro do rock.

No final na festa, eram mais de três horas, eu estava perto do frízer de bebidas, abrindo algumas para os convidados, mas sem beber nada – como já havia dito. Após assaltar os doces, eu já estava alterando, não pelo uso de nada, mas pela minha loucura própria. E fiquei assim até o almoço do dia. Eram quatro horas e acaba a festa, eu fui embora, não consegui dormir, nunca consigo dormir se deitar de madrugada.

Se isso me assustou¿ É claro que não, a sociedade nunca me assunta, se homens formados e ditos sábios tacam bombas uns nos outros, por que meros menores de idade não podem roubar e brigar¿ Quanto às bebidas eu nunca vi ninguém impedir que menores tenham acesso a elas. Mas por fim, mais uma experiência interessante pra minha lista, talvez eu vá à próxima para que for convidado.

sábado, 18 de agosto de 2012

MUTARE - 7º TEXTO

                Algo tocou-lhe nos ombros. Era um toque tão sutil que por um momento ele nem pensou em se virar, queria apenas sentir a mão em seu corpo. O perfume inundara novamente seus sentidos e antes mesmo de se virar já temia o que havia de ver. Mas, como um bom revolucionário, virou-se, confiante do que estava fazendo e viu aquela garota novamente. Estava obscurecendo o sol que lhe tocava o rosto, ali naquele ponto de ônibus, e sua imagem contra a luz haveria de ficar eternamente em sua mente. Seu cabelo, negro, esvoaçava com o vento, espalhando seu perfume pelo ar, seu rosto claro e sua pele macia brilhavam, mesmo na sombra, e iluminavam o rosto de MP. Seus traços faciais eram finos e ela parecia uma princesa do rock. Usava, naquele dia, uma camiseta do John Lennon com a frase You may say  I'm a dramer, but I'm not the only one, e outra calça rasgada - esta um pouco mais rasgada que a outra com a qual ele a vira.
                - Meu nome é Nuntius, prazer em vê-lo. Eu te conheço.
                - Não, você deve estar enganada. Nunca a vi antes - disse, voltando a olhar para a rua, passando uma total apatia com relação a situação, mas sentido por dentro uma loucura a qual nem sabia explicar, mas que pretendia ignorar.
                - Não foi uma pergunta. E você já me viu antes, outro dia na rua, ficou olhando para mim como um bobo. Você é MP, já ouvi falar muito de você aqui na cidade.
                Neste momento ele se assustou. Foi tomado por dois pensamentos, os quais ele associava com diferentes sensações: Seu ego falou primeiro e ele pensava que não era loucura o que estava sentido, que para isto deveria existir uma explicação, já que a garota o conhecia, mesmo que ele não se recordasse; em seguida sentia-se orgulhoso por ser conhecido na cidade, mas também por terem feito com que sua fama chegasse na garota que agora tanto o intrigava.
                - Porque tem ouvido meu nome?
                - As pessoas falam muito de você e de seus amigos. Dizem que são geniosinhos perturbados que vivem perambulando por aí fazendo besteira, mas tenho duvidas sobre esta parte. Ma ouvi em especial sobre você. Existem até mesmo lendas sobre a sua pessoa. Dizem que era uma criança feliz e que era considerado superdotado por todos, mas começou a murchar a medida que o tempo foi passando. Inventam histórias sobre o motivo disto, e cada uma é mais louca que a outra. Mas em uma coisa todas as histórias batem: nunca conheceram homem mais inteligente que você. E isto me intriga.
                A resposta o chateou. Imaginou que já havia mesmo conhecido aquela garota, e não que ela viesse falar com ele sobre opiniões sociais, as quais ele achava totalmente inúteis. Naquele momento, um pouco do que sentia foi embora, e começou a encarar a possibilidade de estar conversando com mais uma das garotas chatinhas que conhecia.
                - As pessoas falam de mais. Quando ouvir falar sobre um gênio, logo desconsidere. Pessoas comuns não compreendem a genialidade. Não podem apontar quem são os gênios e quem são os comuns. Mas enfim, o que está fazendo aqui?
                - Eu queria comprovar uma teoria.
                - Qual a sua teoria?
                - De que você é realmente um gênio mesquinho e egocêntrico, que considera todas as pessoas que se relacionam com você como estúpidas. Mas que vive ansiando pelo momento em que vai encontrar alguém que bote em cheque toda sua inteligência. É um misantropo antissocial que só precisa de carinho e atenção. Uma criança mimada...
                MP parou naquele instante e deu, pela primeira vez naquela tarde, verdadeira atenção à garota. Sabia que todas as provocações visavam apenas tirar-lhe do sério, talvez para provar alguma outra teoria louca, ou somente para chamar a atenção, mas no fundo das palavras ásperas ele encontrou algo. Viu uma espécie de identificação, a qual não podia entender. Parecia que aquela garota, assim como ele, conseguia ouvir além das palavras que as pessoas diziam e ver além do que se lhe apresentava. O sentimento voltou, mais forte, descaracterizando a imagem que vinha se formando. Ele agora a via como uma desconhecida a ser explorada. E talvez este tenha sido o maior erro que ele cometeu até a presente data.
                - Quem é você - perguntou MP, agora assustado.
                - Sou uma garota que sabe quem você é e o que faz e que tem algo para lhe oferecer, em troca de uma coisa muito simples.
                - Por favor, prossiga.
                - Ouvi dizer que no porão da nossa biblioteca municipal existem livros que dizem um pouco mais sobre a cidade e seus mistérios. Livros que foram escritos e escondidos pelos grandes intelectuais das redondezas, a fim de manter algumas verdades encobertas. Talvez alguns lhe interessem, e com certeza alguns interessam à mim.
                - E como faço para consegui-los?
                - Isto é um papo para outra oportunidade. Pode ser no lanche que você me pagará, futuramente, para recompensar as informações que estou lhe passando.
                - Não tenho o costume de me prostituir por palavras cruzadas de uma biblioteca velha.
                - Quero apenas um lanche. MP, você é uma anomalia da natureza. Anomalias me interessam. Não quero transformá-lo em meu boneco pessoal.
                - Podemos ver isto.
                - E outra coisa. Quero também participar das suas reuniões de porão.
                - Como sabe sobre elas?
                - É mais fácil encontrá-lo naquele lugar do que em sua casa. Qualquer bom observador já teria notado que você se reúne ali com seus amigos. Eu só não sei, ainda, o porque - enfatizou o "ainda", certa da vitória que viria.
                - E estes livros, acha que podem ser usados para uma mudança, ou qualquer coisa assim?
                - Eu não faço ideia do que eles contém, mas sei que são o grande segredo da cidade.
                - Afinal de contas, como você sabe deles?
                - Mais um papo para o nosso lanche. Espero notícias suas, estou sempre por aqui.
                Ela virou-se e foi embora, deixando para trás o olhar atento de MP. Plugou os fones em seus ouvidos pequenos e novamente começou a saltitar, agora cantando "I'm a TNT, i'm a dynamite". MP sorriu um sorriso que a muito tempo não se via em seu rosto. Se Operiet pudesse ver aquela expressão enlouqueceria, fascinado pelo que a garota estava fazendo com MP, sem que ele a conhecesse.
                Em seus pensamentos MP analisava toda a conversa. Ia e voltava varias vezes, dando pequenas risadas ao lembrar de coisas que a garota falou. Em determinado momento foi interrompido por um ônibus que parou e abriu as portas, esperando sua reação para saber se deveria seguir ou esperar. Ele se levantou e adentrou nele, que partiu em seguida. O ponto de ônibus se encontrava à algumas quadras da casa de Scire, onde MP estava há algum tempo. Agora tinha como destino sua casa, onde se prenderia por mais algumas horas no que havia acontecido naquela tarde.
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Matheus Henrique

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

MUTARE - 6º TEXTO

- Você e o MP não fumam, não é Operiet?


- Claro que não. Vocês que fumam têm os dentes amarelos e olheiras. Preciso do meu sorriso e dos meus olhos. Me garantem bons finais de semana...


- Eu nunca disse que não fumava Canere.


- Então você fuma?


- Não fumava até hoje. Ascenda um cigarro para mim, por favor.


Canere pegou o cigarro e o ascendeu, como pediu MP. MP pegou-o e colocou na boca, ainda sem jeito. Deu logo uma longa tragada e tossiu toda a fumaça fora, mas prosseguiu até entender que a fumaça deveria atingir seus pulmões. Na primeira vez que o fez sua cabeça deu um spin e ele se sentiu meio morto. O gosto amargo que desceu subiu já suave e atingiu sua boca enojando-o.


- Porque vocês fumam isso? - perguntou, enfatizando seu sarcasmo com uma expressão engraçada que fez todos os quatro rirem.


- Você também não deveria estar fumando MP. De todos, eu e você somos os mais novos e deveríamos ser mais responsáveis que esse bando de corpos sem alma.


- Ainda não entendeu Operiet? Em se tratando de alma, o MP é o que menos sabe sobre o assunto. E olha que ele conversa sobre quase tudo, mas pergunte a ele o que ele sente, que não tenha relação com os pensamentos. Pergunte a ele o que acontece em seu interior quando a cabeça se desliga.


- Boa pergunta MP. Todos nós já tivemos amores, já sofremos, mas continuamos saindo e dando a cara a tapa. Todos nos decepcionamos com diversas coisas da vida, mas nenhum de nós demonstrou apatia. Deixamos a todo momento claro o que sentimos e estamos aqui lutando por um ideal. Discutimos ideias e planejamos ataques. Você, o garoto que deu a ideia de nos organizarmos, na flor dos dezoito anos, faz alguns meses que só vem aqui para beber, agora fumar, e criticar tudo que falamos. O que têm passado por esta sua cabeça?


Na sala, além de MP, estavam Magnus, Scire, Canere e Operiet. Com exceção do último, todos seguravam uma garrafa de vinho em uma das mãos e um cigarro na outra. Todos, no instante em que Operiet encerrou a pergunta, repousaram o cigarro no cinzeiro e colocaram a garrafa no chão. Parecia um gesto combinado. Olharam para MP, que no momento olhava para o chão, fixamente. Segundos se passaram em silêncio, até que ele se levantou, pegou sua garrafa de vinho e saiu, passando a passos curtos e lentos, por todos que ali se encontravam, sem dizer uma palavra. Todos o acompanharam com o olhar, sem reação; sem saber o que havia acontecido.


- Deixe que eu o acompanho desta vez. Incrível alguém da idade dele que não pode andar sozinho pelas ruas... - disse Operiet, sentindo-se um pouco culpado pelo acontecido.


Logo o alcançou. Ele ainda carregava a garrafa de vinho que levou da sala, mas bebia a grandes goles e sua face nem por pouco evidenciava pesar.


- Nós não sabemos mais quem você é. Nem ao menos sabemos o que te deixou assim. Você não conversa mais, nem mesmo com Magnus... Seu primo, que foi seu grande amigo, hoje é um completo estranho para você. Todos nós somos.


- Não é verdade. Vocês são importantes para mim - disse, mas sem alterar o olhar, que se fixava na rua, sem demonstrar que o que falava era sincero.


- Por favor, me diga o que aconteceu.


MP parou, de súbito, e ficou olhando fixamente o outro lado da rua, assustado. Lá passava uma garota que em muito se parecia com ele. Ela andava despreocupada, com a calça rasgada e uma blusa do Nirvana, mas mantinha a mágica feminina que inundava o ar. Embora seu estilo tenha chamado sua atenção, o que mais lhe fez perder o foco foi a maneira como ela se coportava. Estava com um fone de ouvido e saltitava. Por vezes atingia as folhas das árvores, por vezes olhava para os pés e andava em zigue-zague. Seu cabelo, negro, esvoaçava e, embora aquilo lhe parecesse impossível, ele podia sentir seu perfume dali. Cheirava a erva doce e lhe lembrava de sua infância, embebedando-o de lembranças. Ela tinha alguma coisa que ele não podia explicar, nem ao menos entender. Algo parecido com alegria.


- Gostou daquela garota?


- Não exatamente, ela só prendeu minha atenção.


- Vá conversar com ela...


- Não é necessário - disse, virando-se para a direção a qual percorria antes do ocorrido.


- Quem diria, o senhor mestre da argumentação, que sempre que fala faz parar alguém, sempre que abre a boca conquista uma nova mente, sem jeito de falar com uma garota.


- Quem diria então, o senhor da sedução, que sempre que sai conquista um novo corpo, que sempre que conversa com uma garota destrói uma vida, me ensinando a portar-me frente a tal situação.


Uma pausa.


- Sua sinceridade e seu sarcasmo... Coisas que nenhum de nós tivemos a felicidade de conhecer enquanto ainda éramos garotos e não nos importávamos com você. O que uma visão do futuro não pode mudar...


Operiet virou-se e tomou o caminho contrário, visando o porão da casa de Scire. MP continuou em seu caminho, mas não parecia mais tão apático. Duas sensações lhe reviravam o pensamento, periodicamente. Por vezes pensava na garota e no que sentira ao vê-la e logo perdia o raciocínio e vagava sem rumo, depois as palavras de Operiet lhe tomavam a mente e novamente sua expressão voltava ao que era. Operiet era péssimo com as palavras, mas MP era um bom entendedor e conseguia ver o que ele sentia ao pronunciar cada uma delas. No geral ele podia ver isso em qualquer pessoa com quem conversava. Ele olhava além do que os olhos lhe apresentavam, sempre.


MP decidiu voltar para casa, mesmo bêbado e assim o fez.


Operiet chegou no porão e encontrou todos os outros bêbados também, jogados ao chão. Mas estavam conscientes suficiente para perceber que ele voltara sem MP.


- Onde está o novo maluco?


- Ficou pelo caminho. Ele disse coisas que me ofenderam, mas o deixei por outro motivo: percebi que ele precisava pensar. Ultimamente ele tem precisado muito de tempos sozinho e nós não lhe concedemos isso. Estamos sugando toda produtividade dele e esquecendo de deixá-lo se recuperar.


- Acha que ele pode fazer alguma besteira sozinho? - disse Magnus, que logo retomou a pose ao perceber que o primo não havia chegado.


- De que tipo? - perguntou Scire.


- Não sei. Acham que ele pode estar sofrendo de depressão.


- Mas é claro que ele está. Todos nós estamos depressivos. Estamos em um porão imundo, bebendo vinho barato e fumando cigarros de grama. Por favor, sejam sinceros e me digam se algum de vocês está bem. Nenhum de nós está, mas todos temos motivos para acordar todos os dias. Não somos suicidas. Ele não se deixaria levar por este sentimento, assim como nós - Canere gaguejava, tomado pelo álcool, mas se fez parecer certo, com um tom de voz que transmitisse exatamente o que pensava.


- Será que MP pensa dessa forma?


Ninguém disse nada. Todos se olhavam, sem resposta. Depois de um tempo pararam de pensar na questão e cada qual começou a se perder em sua loucura alcoólica e foram, aos poucos, apagando-se no chão. Com exceção de Operiet que não conseguiu tirar da cabeça a imagem de MP observando aquela garota caminhar. Ele viu, naquele rosto gasto pelo álcool, o garoto que conhecera, ainda no primeiro ano do ensino médio. O sorriso que antes vinha com facilidade, quase se esboçou no rosto daquele novo punk. Sua calça rasgada e suja, sua camisa que a priori era branca, mas que já estava amarelada, e seu cabelo que não era penteado fazia dias deram lugar ao garoto que ia à escola todo engomado, parecendo um garotinho rico.


Operiet rezou naquela noite - para o acaso, já que este também era ateu -para que devolvesse ao MP a vida que ele mesmo jogou fora. Não sabia o que lhe havia acontecido e se sentia culpado por isso. Já havia perdido as esperanças de melhora, mas aquele olhar as reavivou. A faísca de felicidade brilhou no olhar de MP e Operiet se alegrava por isto, martirizando-se apenas por não saber o motivo.






Matheus de Souza

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

MUTARE - 5º TEXTO


                - Animado para ir ao curso hoje MP? - perguntou Scire, quando foi lhe buscar em casa, de carro.
                - Não muito. Faz tempo que não vou à aula e minha vontade ainda não mudou. Gosto mais dos momentos que passamos na praça tocando violão. Gosto de qualquer momento, desde que eu não esteja em uma sala de aula.
                - Acho que te entendo. Faremos assim: vamos para a praça hoje novamente. Canere disse que não iria trabalhar, vou ligar para ele e nós o buscamos em sua casa.
                Scire ligou para a casa de Canere e certificou-se de que este se encontrava na mesma. Depois entrou no carro, junto com MP e partiram ao encontro dele. A viagem foi curta, tendo em vista que a cidade é pequena, e logo puderam rumar á praça que tanto adoravam.
                Chegaram. Canere portava um violão dentro da capa, Scire estava sério, preocupado com os cuidados com o carro e MP estava risonho - um fato raro nos últimos tempos. Aquele era o único que sabia manusear o instrumento, os outros dois eram apenas ouvintes fervorosos. Por isto, Canere sentou-se no centro, cercado pelos outros dois,  e se aprontaram para tocar. Sentaram-se bem largados ao chão, de forma que não demonstravam respeito algum por nada. Eram criaturas livres e naquele momento aquilo ficou explícito.
                - Por qual música começamos?
                - Aquela Coisa, do Raul, por favor - sugeriu Scire, pensando em algo que ouvirá tempos atrás.
                Os dedos velozes de Canere correram pelo violão enquanto a melodia saía, embelezando a noite. No tempo correto começaram a cantarolar a bela poesia de Raul e em pouco tempo estavam terminando-a, já não tão calmos como quando começaram. MP já enlouquecia-se ao som, balançava a cabeça como se aquela fosse a única coisa que soubesse fazer, Scire admirava as pessoas na rua, e discretamente movia o corpo, mas cantando alto, assim como os outros dois. Canere encerrou a canção, sorrindo, e orgulhoso do que haviam feito. Tal sensação há muito não se apresentava aos três. Aquele dia havia de ser especial.
                -  Perceberam o que Raul escreveu sobre a verdade? - questiona MP.
                Entreolharam-se todos.
                - Não - responderam em coro os outros dois.
                - Sobre uma verdade universal, por trás das outras verdades; droga, só eu presto atenção nas coisas por aqui! - estava agora distraído, olhando para o nada.
                - Não, você é o único que não se diverte por aqui, fica o tempo todo procurando algo para criticar e pensar. A maioria das pessoas se diverte, sabia?
                - Eu sei que o mundo não para enquanto as pessoas se divertem e a minha diversão é garantir que ele não precise parar.
                - Acho que entendi... Ele está falando sobre as verdades subjetivas e uma verdade que dá origem á elas. A verdade universal... - Scire estava distraído enquanto eles discutiam, pensando no que MP havia falado, mas voltou-se para o grupo agora, e estava animado.
                - Não vejo sentido nisso. As verdade subjetivas regem o mundo. Mesmo que existisse uma verdade universal e que vocês conseguissem descobri-la, qual seria o fundamento? Cada pessoa vê o mundo de uma forma, cada qual vive a vida relacionado à essa visão e o mundo vira um lugar de mil verdades. Não podemos mudar a forma como entendemos o mundo.
                - Ou não. Talvez o mundo seja um lugar de mil opiniões e uma verdade. Pense comigo: cada pessoa tem sua opinião, mas elas todas se parecem em algum ponto. Considerando este ponto comum, ele tem que ter uma inspiração comum. E não só isso, para que criemos uma imagem de algo, não só precisamos interiorizar o conhecimento, ele tem que vir de algum lugar. Não podemos entender uma pedra sem que ela de fato exista, mesmo que sua existência seja diferente do que vemos. Se, considerada sua existência, vamos realmente entendê-la como é, é outra história.
                - Sim, concordo. Mas se temos liberdade para entender da maneira que quisermos, qual a finalidade da verdade universal? Porque não importa a verdade que se manifesta por trás das coisas, pois o meio de atingi-la seria extinguir a percepção do homem sobre o mundo. E não se pode atingir este ponto simplesmente analisando as semelhanças nas opiniões.
                Scire se calou. O homem que antes parecia cheio de razão se calou. Junto com ele as esperanças se calaram e a ideia que surgirá agora era passado.
                -Vocês não entendem mesmo? - perguntou MP, virando-se para os dois colegas. Não veem o segredo da verdade universal? Qualquer um pode entendê-la, assim como muitos fizeram, e qualquer um pode ignorá-la, mas poucos são os que a identificam com a intenção de entender o ser humano e menos ainda são os que a atingem. Pensem um pouco: se existe uma realidade que rege tudo que o ser humano acredita, então tudo que nós conhecemos e que é verdade está nesta verdade, e tudo que não, foi criação do homem. O segredo do que somos e do que fizemos com o mundo está nesta verdade universal. Tendo em vista que o mundo antes de nós é A e que depois passou a ser B, B menos A é igual a tudo aquilo que nós criamos, e eu não me refiro a nada que envolva partículas.  A priori quero dizer todas as relações humanas que extrapolam o físico. O segredo é pensar em tudo aquilo que sobrevive sem depender de nós. Pensem: o que seria extinguido com a nossa extinção? O que sobrar compõe a verdade universal.
                Silêncio novamente. Os três estavam pensando sobre o que foi dito.
                - É loucura iniciar uma revolta sem uma causa, certo? - perguntou Scire.
                - Certo - responderam em coro.
                - Acho que concordamos que agora temos uma causa...
                - Só nos falta um nome - disse MP, enquanto dedilhava o violão produzindo sons sem sentido.
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Matheus Henrique

O MISTÉRIO DOS HOMENS VICTCK - PARTE 7

Moke, com uma voz rouca, de vitalidade perdida e com os olhos espelhando uma brava história começou seu conto:

“Não me lembro bem quando foi, acho que era década de trinta, tempos antes de eu conhecer minha primeira mulher, eu ainda era jovem, uns dezoito anos, tinha ido pela primeira vez na minha vida a um bordel. Lembro que a rua estava deserta e com uma geada forte de branquear os arredores, estava andando feliz pelo cais, esperava encontrar uma mulher por lá, um dos meus amigos na época, chamado Regis veio correndo em minha direção, gritando meu nome aos sete mares. Ele queria me convidar para uma aventura.

Eu era jovem e não entendia que a morte podia não ser uma boa aventura, mas eu fui, nesse mesmo barco que estamos agora. O governo estava oferecendo uma boa recompensa para quem capturasse e matasse uma baleia que já tinha afundado muitos dos barcos amigos. Devíamos ser apenas mais um nas estatísticas daquele animal maligno.

Estava frio, muito frio, eu pedi um casaco, mas o máximo que fizeram foi zombar do meu frio. Eu olhei para o mar, senti algo muito ruim, olhei para os marujos e vi a morte, olhei para mim mesmo e me vi um cadáver. Foi tenebroso, e é até hoje quando eu me lembro. Os homens velejavam no vazio esperando a baleia chegar, e eu estava com eles, alguns jogavam truco e zombavam da baleia, das suas mulheres, dos seus amigos e até de si mesmos, ou outros fingiam se apoderar de coragem, mas estavam molhando as calças.

Eu fui o primeiro a ver a baleia, ela era enorme, tinha uns trinta metros de comprimento, os dentes rangiam afiados, tinha os olhos inchados e sangravam muito, as feridas pelo corpo davam a ela a imponência de ter vencido muitas guerras...”

O capitão teve um ataque de espirros, alguns marujos comentavam se ele ainda ira morrer antes do barco afundar, ele era um homem de garra e por isso desprezado por muitos. Tudo estava calmo, profundamente calmo; mesmo para pessoas ameaçadas pela morte.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O MISTÉRIO DOS HOMENS VISTCK - PARTE 6

O dia já tinha se passado, os homens de fé já tinham perdido toda a que tinham, os ateus estavam implorando para o nada, a mulher simplesmente sorria com as crianças – me parecia a mais sensata de todas as pessoas naquele barco. Jonas, com sua expressão amigável, embora cabisbaixo pelo confronto com a morte continuou sua história:

“O presidente, depois que sua mulher saiu, voltou para sua mesa, sentou-se e chorou. Ele sempre teve dois sonhos na vida: ter uma família ou governar uma revolução. Com qualquer um ele ficaria feliz, mas fazia tempo ele já tinha se convencido de que podia ter os dois, agora se encontrava sem saída, senão voltar as suas origens e aceitar o seu eu verdadeiro. E sim, isso dói muito.

Mas ele era forte e tinha o dever de fazer isso: pensou então que a nação viria a ter muitos outros revolucionários, mas que seu filho só teria um pai por toda a eternidade. E que não queria que ele crescesse sem um. Era hora de conhecer a si mesmo. Ligou então para o exército e mandou cancelarem a missão – não haveria nenhum militar nas ruas. Ligou para os parlamentares e recuou todas as suas idéias, os revolucionários se mostraram fracos e aceitaram a oferta de uma troca de interesses.

Ele saiu da praça dos três poderes, foi até seu apartamento – sabia que sua mulher estaria ali. Abriu a porta, foi até o quarto e viu ela chorando, reclamando e arrumando as malas. Eles se olharam e ela disse:

- Eu escolho a nossa família!

- Demorou tanto assim para descobrir isso¿

- Não... sim... depende... eu tinha que pensar, amor.

- Não me chame mais de amor.

- Certo, mas você acha que foi fácil deixar o poder, a revolução e a mudança por nos¿ Eles eram o segundo amor da minha vida, mas meu ego só agora me permitiu ver quem era o maior amor da minha vida. E era você, e agora o nosso filho. Eu não posso confiar em uma nação, mas posso prometer minha vida em uma aposta sua.

Ela chorou, parou de fazer as malas e disse:

-Eu... eu... essa foi a maior prova de amor que você já me deu, mas não é isso. Você foi indeciso.

- Não, nunca estive indeciso, apenas me fiz de forte.

- Você sabe quantas vezes você já discutiu isso comigo¿

- Muitas, mas em todas tivemos um motivo para não brigarmos, por favor, eu desfiz a revolução inteira, amanhã terei que sair do país e vocês virão comigo, eu quero o bem de vocês. Eu amo vocês

- Você pode estar certo, que outra mulher no mundo teve tamanha prova de amor. Nenhuma. Eu vou, mas não me encoste.

Ela continuou fazendo a mala, mas agora para ir com ele. E os dois ficaram ali no quarto, se observando, olhares que queriam dizer algo. Mais tarde, ainda casado com ela, com seu filho já na faculdade, ele se tornou escritor e disse em um dos seus livros:

- Existem dois tipos de história: uma que vive eternamente nos livros de história, mas é manchada de sangue e a outra que vive finitamente nas pessoas que você cativou e é marcada pelo amor. Às vezes alguns homens se vêem na difícil posição de escolher a qual honra iriam se dar.

Muitos no barco se calaram, aparentemente não tinham entrado para história sequer alguma, Oliver gritou (sem ser escutado):

- Asneira! Asneira! Ele só queria sexo, mas era burro e não conseguia ninguém além da sua mulher.

Permaneceram em estado de choque por uns trinta minutos. Menos a mulher e as crianças que pareciam fora daquele terror. Era a vez do capitão contar uma história, o homem pegou seu charuto cubano, rançou-o da boca, olhou para a mulher de baixo para cima, viu os drogados se atirando no chão disputando o charuto e olhou para seus filhos, chorou de tanto ser forte.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

MUTARE - 4º TEXTO


                Manhã de segunda feira daquelas bem clichês. Os pássaros cantavam ritmados, as árvores apresentavam um verde brilhoso, os carros corriam nas avenidas principais, os adultos acordavam e as crianças despertavam. Em um lugar especial daquela pequena cidade um garotinho de 10 anos vai até a casa de seu primo, de 8 anos, chamá-lo para que juntos fizessem o caminho até a escola - ambos estudavam no mesmo  local.
                O garoto mais velho, portando uma mochila verde com bordados infantis, vai guiando o mais novo, todo vestido de modo a indicar que sua mãe o ajeitou antes de sair, pelas ruas da cidade. Já eram dois garotos bem espertos apesar de suas idades. Em um momento, quando se aproximavam dos portões da escola, um homem lhes chamou. Este homem estava vestido com um casaco preto, que descia até quase os joelhos, e uma calça jeans rasgada. Os garotos se aproximaram, sem colocar maldade na ocasião, até porque o local era bem movimentado e qualquer grito poderia denunciar um possível crime.
                - Quantos anos vocês têm? - perguntou ao mais velho.
                - Eu tenho dez anos, meu primo tem oito, e o senhor?
                - Não importa minha idade, até porque não me lembro mais de quantos anos tenho. A idade é um conceito idiota, é só um número que não diz nada sobre ninguém. - parou por alguns segundo e refletiu sobre o que havia dito, logo voltando a atenção aos garotos - Onde vocês moram?
                - Moramos aqui perto, alguns bairros naquela direção, porque o senhor quer saber?
                - Porque eu queria saber se vocês querem passear hoje em alguns lugares, no horário de aula, depois eu posso trazê-los de volta aqui.
                - Não, nós vamos assistir à aula - disse o garoto mais velho, assustando-se com a proposta.
                - Espere... eu quero ir com ele - disse o garoto mais novo, mantendo suas feições normais como se não tivesse entendido a situação.
                Seu primo ficou apavorado naquele momento. Lembrou-se do que sua mãe havia lhe ensinado e também dos filmes e desenhos que havia visto. Sabia que nada de bom poderia acontecer ali, embora ainda não entendesse muito bem as extensões da maldade humana. Pegou seu primo pelo braço e começou a arrastá-lo em direção à escola, mas tanto o garoto como o homem se olhavam, fascinados um com o outro, e mal davam importância para o que acontecia além daquela situação.
                - Você está louco? O que acha que sua mãe vai pensar quando souber que você saiu com um estranho, e não só isso, o que você acha que vai acontecer? Não vê o que ele pretende?
                - Acalme-se! Você é que não consegue ver o que está acontecendo e quem é este homem. Não importa o que você diga ou faça, pois você não vê o que eu estou vendo, então sua única solução é vir comigo - disse todas estas palavras ainda olhando fixo para os olhos surrados daquele homem, que lhe retribuía o olhar, agora com satisfação.
                O primo do garotinho soltou seu braço e o deixou partir com o homem, e seguiu-os, caminhando a passos curtos logo atrás dos dois. O homem falava coisas que o garoto mais velho não entendia. Falava sobre política e filosofia e criticava as pessoas que passavam na rua. Ele estava dando uma aula ao garoto mais novo, que parecia saber tanto quanto aquele homem.
                 - E o que você sabe da vida garotinho? - Perguntou o homem ao mais novo dos garotos, depois de um tempo de conversa.
                - Não sei nada senhor. Tudo que eu faço é vir para a escola e escutar a professora falar sobre coisas que não vejo fundamento em saber. Passo a aula pensando em outras coisas e inventando diálogos em minha mente.
                 - E isso prejudica suas notas?
                - Acho que não, pois tenho uma das maiores notas da sala. Mas os assuntos são muito bestas, coisas que eu não preciso me esforçar para entender, que entendo como entendo conversas que tenho com minha mãe, como entendo esta conversa com o senhor.
                - Você não está entendendo esta conversa - afirmou, e todas suas feições indicavam que estava certo do que estava dizendo.
                - Como não? Você me pergunta e eu te respondo, com palavras que são coerentes ao que você diz. Isso é entender certo?
                - Sim, mas você sabe porque estou fazendo isso?
                - Porque o senhor passou a vida toda achando que os seres humanos são ruins, e passou o tempo todo querendo provar isto, mas não teve sucesso. Abandonou varias coisas em sua vida, sendo que estas agora lhe fazem falta. E agora que perdeu as esperanças em si mesmo quer apenas deixar para alguém os conhecimentos que o senhor adquiriu, para não sentir que sua vida foi em vão. Só não sei por que o senhor me escolheu.
                O homem parou de caminhar enquanto ouvia estas palavras, não entendia como era possível que um garoto daquele tamanho tivesse tal sensibilidade. Lágrimas começaram a correr em seu rosto e o garoto mais velho não entendia o que estava acontecendo ali. Aquele momento durou uma eternidade e acabou cinco minutos depois quando o garoto mais velho resolveu falar.
                - Senhor, me desculpe interromper, mas o senhor não disse seu nome...
                - Me chamo Eventus. E você garoto, como se chama? - retribuiu a pergunta em uma resposta automática de educação, enquanto enxugava o rosto.
                - Meu nome é Magnus, senhor.
                - E você garotinho, como se chama - agora estava um pouco mais concentrado naquela convenção  social que se desenrolava, embora lágrimas ainda corriam em seu rosto.
                - Me chamam de MP, senhor...
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Matheus Henrique

O MISTÉRIO DOS HOMENS VISTCK - PARTE 5

O homem é o lobo do homem... Eles estavam à beira da morte, no meio de uma incrível tempestade marítima, o dia não amanhecia mesmo já chegando à noite. Deviam estar se matando, ou no mínimo brigando, mas a conformidade entre eles e o intelecto fez com que isso não ocorresse. Alguns focos se formaram, mas nada de generalizou. Jonas continuou a sua história:

“Quando tinha treze anos o garoto foi perguntado sobre o que ele queria fazer quando crescer durante uma dinâmica de grupo (em sala de aula), a resposta foi direta, ele queria dominar no mundo. Dito isso com tamanha verdade, foi ouvido com desprezo pelos colegas, mas nenhum daqueles colegas ou amigos tinham ao menos idéias para mudar sequer a sua região, ainda estavam tentando organizar suas mente e o garoto tentava organizar o mundo.

Como todos ele cresce. Suas ideais e suas aparentes loucuras sempre tinham afastado as mulheres da sua vida, mas pela primeira vez ele conhece a revolucionária que iria mudar o seu mundo. Ele funda seu próprio partido, forma coligações, se relaciona com outros revolucionários ou simples revoltados, atinge o seu objetivo e mesmo assim matem a sua integridade ao passar pela política de interesses e interesseiros que governava o país. Ele era o presidente da república e tinha maioria nos três poderes.

Era no ano de 2031, ele estava sentado no seu posto de trabalho no Planalto,as luzes estavam apagadas, ele pensava sobre o que iria fazer. A noite de novembro foi crucial para a mudança, já estava tudo acertado... Seria o golpe do século. Ele já tinha ligado para seus aliados no senado e na câmara de deputados, faltava confirmar a presença do exercito nas ruas.

Já eram sete horas e sua mulher chegou:

- Amor, você sabe o que eu disse sobre a revolução¿

- Sim, fale...

- Eu não quero mais, eu não poderei viver nesse clima, não quero ser o centro das atenções do mundo, você não pode continuar com isso, muito menos agora.

- Não! Essa é a minha vida, a minha revolução, você... Você não pode impedir.

- Pense no nosso filho.

- Filho¿ Você está brincando¿

- Não, eu estou grávida. Imagine a pressão que ele sofrerá. Os riscos na nossa família, e se alguém se revoltar contra você¿

- Mas... mas... como você nunca me contou isso¿

- Você estava tão ocupado e empolgado com essa sua revolução que eu não encontrava tempo, não queria te atrapalhar.

- Mas... como assim sem tempo¿ Eu nunca deixei de estar ao seu lado, você sabe o quanto eu prezo a nossa união.

- É amor, mas eu não queria atrapalhar.

- Mas a revolução deve continuar, será um sacrifício necessário, nosso filho terá uma vida privada, mas será pelo bem do Brasil.

- Não! Nosso filho vai sair na rua pra aprender a andar de bicicleta, vai se sujar na lama, vai jogar vídeo-games, ter namoradinhas na escola. Vai ser uma criança normal. Ou você não se lembra de todas as promessas e de todas as coisas que falava pra mim quando ainda éramos jovens. Você pode ter sido o marido perfeito, mas eu não admito isso! É a nossa família ou a droga desse país!

- Mas e meu compromisso, e tudo que eu pensei, e tudo que eu julgava, e minha luta¿

- Você quer dizer poder, né¿ Pode ser, mas e a nossa família¿ Você, nosso filho e eu, não somos nada pra você não¿

- São, mas... Por favor, saia da minha sala.

- Está certo então, essa criança será minha! E você nunca encostará nele!

E a mulher bateu a porta. Ele sabia o que devia ser feito e como devia ser feito...”

Oliver que nesse momento já estava se drogando e assediando a mulher junto com alguns colegas marujos grita para Jonas:

- Eu disse, esses caras não sabem nada, são malucos. Não tratam bem nem suas famílias! – E se referindo para a mulher disse - Não é mesmo gostosa.

Jonas riu, pensou em contra-argumentar, mas desistiu ao ver que aquele homem não merecia tamanha atenção novamente. Conteve sua raiva. A criança estava dormindo a tanto tempo que já estavam duvidando que o bebê estivesse vivo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O MISTÉRIO DOS HOMENS VISTCK - PARTE 4

Jonas após seu tempo de observação e silêncio, começou com a sua voz forte e convicta:

“A história que vou contar acontece em um tempo além do nosso, mas pode ser o nosso futuro. Em 1990 nasceu um garoto em terras brasileiras, com cinco anos seu pai foi rudemente assassinado, tornado-o órfão de pai, mas sua mãe resistiu a luta e conseguiu cumprir o sonho do casal: o garoto cresceu, sempre como um dos primeiros da classe – senão o primeiro – formou-se em engenharia, trabalhou um pouco no ramo. Mas ele tinha maiores ambições, ele queria entrar para a história e mudar o mundo onde vivia.

Desde os seus dez anos ele tinha um papo cabeça, discutia política com os mais velhos – e sempre vencia -, discutia filosofia com seus amigos e alguns outros filósofos – sempre aprendendo e exercitando mais a sua mente. Com isso antes dos quinze ele já tinha convivido com todas as questões filosóficas e sabia exatamente a funcionalidade de cada sistema de governo, não gostava de nenhum, todos tinham erros. Isso fez com que ele buscasse teorias em desenvolvimento, convivesse com revolucionários e pouco a pouco elaborasse o seu projeto de governo. As questões relativas a vida e aos problemas dela – que todos têm – eram, para ele simples de resolver, já que tinha aprendido como aplicar filosofia na sua vida.

O Brasil já tinha saído da ditadura, o povo continuava o mesmo: relaxado, banal, sem críticas, pobre de conhecimento, embora ainda muito colaborador e unido. Continuavam sendo a marionete perfeita. Os resquícios do populismo de Vargas ainda pairavam pela sociedade, tudo indicava que ser populista era o caminho para esse garoto.

Seus amigos o taxavam de louco, sua família não entendia o que se passava na mente dele, mas ele tinha aprendido por si mesmo a se impor limites – esse foi o resultado a grande liberdade dada pela sua mãe. Enquanto seus amigos e colegas ouviam sertanejo, funk e bandas pop ele ouvia Raul, Legião, Zé Ramalho e Pink Floyd...”

Já estavam todos sentados em roda, a vodca passava de mão em mão. King Oliver, um cético a tudo, na verdade um homem sem opinião sequer alguma, do tipo que critica tudo por não ter argumento se levantou - estava sentado no chão – e disse, embebedado:

- Hãm, mais um politizado, odeio essas asneiras, cala a boca e vai beber algo.

- Me desculpe senhor, mas só estou sendo humano, política é quase biológica na gente, tenho sim o direito de falar isso. E me respeite, “amigo”.

domingo, 5 de agosto de 2012

O MISTÉRIO DOS HOMENS VISTCK - PARTE 3


Ela continuou sua história:
“Após anotarem as respostas de todas as perguntas e a solução de todos os problemas, descobriram que simplesmente alguns problemas não tinham solução: a morte não era reversível, o ciclo da vida não podia se freado, deus estava dentro de cada um deles e não nas religiões ou nos livros e a grande razão da vida, a grande resposta para tudo era apenas perguntar. Eles descobriram do modo mais frio, mais duro e mais triste que tinham trocado a razão das suas vidas pela resposta e agora não podiam mais e não tinham mais por que viver já que as perguntas tinham todas as respostas que eram precisas.
O fato de terem aceitado as suas limitações biológicas ou computacionais se formos considerar a verdade por trás deles fez com que eles não se perguntassem mais nem sobre como era a raça que os criou, como era esse outro universo, como era a vida realmente, eles que sempre se acharam um milagre divino ou o mais perfeito fruto do caos agora estavam resumidos a uma simples experiência de um povo que não tinha respostas.
A vida se tornou banal, o maior sonho do mundo passou a ser: nascer, crescer, trabalhar inutilmente, se reproduzir e morrer. Não havia mais frase célebre e frases de motivação. As religiões ruíram todas. O único crime cometido era o suicídio que de tão repetitivo se tornou apenas um direito em Vistck. Quando todos se tocaram disso, da falta de perspectiva, deram um a um cabo as suas vidas.”
A mulher terminou seu discurso, a criança continuava dormindo, o dia não tinha amanhecido e como tudo parecia perdido todos do barco já tinham desistido, se entregado ao mar e se reuniram no salão onde estava a mulher. Jonas, um homem de mais ou menos trinta anos, formado em medicina, que estava indo para uma faculdade continuar suas especializações do outro lado do Atlântico, se pronunciou:
- Bela história senhorita, mas eu também gostaria de contar uma.
Tomou um gole de uísque. Olhou pela janela da cabine, o dia continuava escuro, todos já tinham aceitado a morte e desistido dos seus sonhos e das suas famílias. Havia certa movimentação de homens ao redor da mulher, ela era bonita, de corpo curvado, e agora estava sendo assediada por um dos drogados a bordo. “Nem na hora da morte os homens se esquecem do sexo. Isso sim é incrível.” – pensava ela desiludida.

sábado, 4 de agosto de 2012

O MISTÉRIO DOS HOMENS VISTCK - PARTE 2

O capitão Moke avisa a todos no barco que a tempestade está se intensificando, começa então a ladainha dos devotos marujos, a mulher, porém continua a sua história, como se não estivesse acontecendo nada. O bebê estava no seu colo, dormia o tempo todo desde o começo da tempestade e não queria acordar tão cedo. As crianças fixas com os olhos nos lábios da mulher, sonhando com outro mundo, mesmo que não entendessem tudo aquilo que era dito. O drogado agora tinha ganhado um companheiro, o segundo drogado que após encontrar a droga escondida no porão do navio dentro de um barril vermelho feito de pau-brasil resolvera ouvir a história e dividir com seu outro amigo o fruto da caça. A mulher continuou, com muita pertinência e convicção:

“A passagem era extremamente pequena, um homem inteiro não poderia entrar ali sem se agachar, dois homens, julgados corajosos por uns e loucos por outros aceitam o desafio de entrar na fenda e descobrir o que havia por lá. Os religiosos e fanáticos iniciam uma campanha para interromper a viajem até a fenda, com o argumento de que se abrirem aquela fenda entrariam na casa de deus e segundo as suas antigas escrituras isso era errado, ao menos naquelas condições, diziam lá: “Aquele que ousar adentrar a casa do divino terá sua cabeça cortada, sua alma entregue na loja de corpos, seus pensamentos capturados e exibidos na praça dos anjos e todo o seu povo será exterminado por um feixe de luz amarela vindo da casa divina”. Assim conta o Livro do homem Vistck, no seu terceiro capítulo dedicado exclusivamente a torturas e outras provas do imenso amor, perdão e compaixão de deus pelo seu povo.

Vale ressaltar que eles acreditavam que deus era único e que segundo muitos analistas daquela sociedade, a religião tinha superado a biotecnologia em termos de lucro há muitos anos. Mas nada deteve o poder do avanço da ciência, os gloriosos homens foram até a fenda e lá entraram. No planeta todos estavam apreensivos para saber o que iria acontecer, seus caixões já tinham sido encomendados, já eram pensados os textos das homenagens póstumas e agora não se ouvia mais ninguém chamando aqueles homens de loucos. Os religiosos já tinham mudado o seu discurso e falaram que eles chegariam ao lado de deus e esse teria compaixão de todos e os fofoqueiros agora só lembravam-se de como eles eram corajosos e do grande passo que eles tentaram dar. Mas infelizmente eles não morreram, voltaram cegos, sem movimentos praticamente e surdos, mas tinham toda a sabedoria do mundo e boas vozes para contar a verdade. Toda a vitalidade daqueles homens tinha sido sugada deles por eles mesmos para “trocarem” por mais tempos vivos.

Eles não sabiam mais seus nomes e suas histórias, mas sabiam a resposta para tudo e eram coerentes em tudo. Eram os heróis dos homens Vistck. Diziam eles que na fenda estava contida um pequeno pedaço de metal, parecia um conjunto de circuitos eletrônicos de precisão subatômica. Ao encostarem na peça, um impulso elétrico deu a eles todas as respostas e todos os poderes possíveis no mundo, exceto a imortalidade.

Segundo eles o mundo tinha sido criado, projetado e executado por uma raça super inteligente em uma simulação computacional, o que justificava que sendo meros circuitos de uma experiência bizarra era melhor se desapegarem das perguntas e simplesmente aceitarem a sua condição limitada. Isso causou ódio em quase toda a população, ondas de suicídio se espalharam, poucos dez por certo restaram no universo. Esses então fizeram todas as perguntas possíveis e imagináveis aos homens, e ganharam a verdade em troca, escreveram tudo o que ouviram e deixaram para as próximas gerações...”

Ela é interrompida pelo capitão que dizia:

- Homens a bordo, parece que esse é o nosso fim. Se apeguem as suas vidas, se arrependam dos seus pecados e quem quiser, podem tomar uns drinks comigo!

A mulher interveio:

- Não podemos desistir assim tão fácil, temos crianças a bordo, o senhor é um fraco por acaso¿

Ele se irritou, ficou frente a frente com a mulher, e com força a jogou contra a parede. Moke tinha perdido uma mão há anos atrás, quando ainda era um jovem, nunca contou para ninguém o que tinha acontecido naquele dia, mas agora não tinha mais motivos para esconder a verdade. No lugar da sua mão estava uma prótese no formato de uma lança muito bem afiada. Com ela na parede, sacou a sua lança – ou mão – e disse:

- Como a senhora acha que eu consegui isso¿ Sendo um fraco¿ Eu lutei muito, sabia¿ Nunca quis estar aqui. Respeite-me ou não terei compaixão com a senhora por ser mulher e a jogarei no mar como faziam meus avôs.

Ela se calou, olhou para a criança, segurou o crucifixo que trazia no peito e disse em voz reconfortante para a criança ainda sonolenta:

- Eu vou te proteger meu filho, eu juro. Ninguém, nem nada te farão mal.

Agora com lágrimas nos olhos a mulher continuou, engolindo o choro, com uma expressão nítida de medo, mas com a coragem de poucos. Se fosse a sua morte, ao menos essa história ela devia contar para aquelas crianças. Olhou ao redor, recordou partes da sua vida, justamente aquelas que queria esquecer, viu os drogados, os marujos pecadores se apegando aos seus deuses, o capitão cético aceitando seu fim e contando suas glórias por morrer no mar.