Algo
tocou-lhe nos ombros. Era um toque tão sutil que por um momento ele nem pensou
em se virar, queria apenas sentir a mão em seu corpo. O perfume inundara
novamente seus sentidos e antes mesmo de se virar já temia o que havia de ver.
Mas, como um bom revolucionário, virou-se, confiante do que estava fazendo e
viu aquela garota novamente. Estava obscurecendo o sol que lhe tocava o rosto,
ali naquele ponto de ônibus, e sua imagem contra a luz haveria de ficar
eternamente em sua mente. Seu cabelo, negro, esvoaçava com o vento, espalhando seu
perfume pelo ar, seu rosto claro e sua pele macia brilhavam, mesmo na sombra, e
iluminavam o rosto de MP. Seus traços faciais eram finos e ela parecia uma
princesa do rock. Usava, naquele dia, uma camiseta do John Lennon com a frase You may say I'm a dramer, but I'm not the only one, e
outra calça rasgada - esta um pouco mais rasgada que a outra com a qual ele a
vira.
-
Meu nome é Nuntius, prazer em vê-lo. Eu te conheço.
-
Não, você deve estar enganada. Nunca a vi antes - disse, voltando a olhar para
a rua, passando uma total apatia com relação a situação, mas sentido por dentro
uma loucura a qual nem sabia explicar, mas que pretendia ignorar.
-
Não foi uma pergunta. E você já me viu antes, outro dia na rua, ficou olhando
para mim como um bobo. Você é MP, já ouvi falar muito de você aqui na cidade.
Neste
momento ele se assustou. Foi tomado por dois pensamentos, os quais ele
associava com diferentes sensações: Seu ego falou primeiro e ele pensava que não
era loucura o que estava sentido, que para isto deveria existir uma explicação,
já que a garota o conhecia, mesmo que ele não se recordasse; em seguida
sentia-se orgulhoso por ser conhecido na cidade, mas também por terem feito com
que sua fama chegasse na garota que agora tanto o intrigava.
-
Porque tem ouvido meu nome?
-
As pessoas falam muito de você e de seus amigos. Dizem que são geniosinhos
perturbados que vivem perambulando por aí fazendo besteira, mas tenho duvidas sobre
esta parte. Ma ouvi em especial sobre você. Existem até mesmo lendas sobre a
sua pessoa. Dizem que era uma criança feliz e que era considerado superdotado
por todos, mas começou a murchar a medida que o tempo foi passando. Inventam
histórias sobre o motivo disto, e cada uma é mais louca que a outra. Mas em uma
coisa todas as histórias batem: nunca conheceram homem mais inteligente que
você. E isto me intriga.
A
resposta o chateou. Imaginou que já havia mesmo conhecido aquela garota, e não
que ela viesse falar com ele sobre opiniões sociais, as quais ele achava
totalmente inúteis. Naquele momento, um pouco do que sentia foi embora, e
começou a encarar a possibilidade de estar conversando com mais uma das garotas
chatinhas que conhecia.
-
As pessoas falam de mais. Quando ouvir falar sobre um gênio, logo desconsidere.
Pessoas comuns não compreendem a genialidade. Não podem apontar quem são os
gênios e quem são os comuns. Mas enfim, o que está fazendo aqui?
-
Eu queria comprovar uma teoria.
-
Qual a sua teoria?
-
De que você é realmente um gênio mesquinho e egocêntrico, que considera todas
as pessoas que se relacionam com você como estúpidas. Mas que vive ansiando
pelo momento em que vai encontrar alguém que bote em cheque toda sua
inteligência. É um misantropo antissocial que só precisa de carinho e atenção.
Uma criança mimada...
MP
parou naquele instante e deu, pela primeira vez naquela tarde, verdadeira
atenção à garota. Sabia que todas as provocações visavam apenas tirar-lhe do
sério, talvez para provar alguma outra teoria louca, ou somente para chamar a
atenção, mas no fundo das palavras ásperas ele encontrou algo. Viu uma espécie
de identificação, a qual não podia entender. Parecia que aquela garota, assim
como ele, conseguia ouvir além das palavras que as pessoas diziam e ver além do
que se lhe apresentava. O sentimento voltou, mais forte, descaracterizando a imagem
que vinha se formando. Ele agora a via como uma desconhecida a ser explorada. E
talvez este tenha sido o maior erro que ele cometeu até a presente data.
-
Quem é você - perguntou MP, agora assustado.
-
Sou uma garota que sabe quem você é e o que faz e que tem algo para lhe
oferecer, em troca de uma coisa muito simples.
-
Por favor, prossiga.
-
Ouvi dizer que no porão da nossa biblioteca municipal existem livros que dizem
um pouco mais sobre a cidade e seus mistérios. Livros que foram escritos e
escondidos pelos grandes intelectuais das redondezas, a fim de manter algumas
verdades encobertas. Talvez alguns lhe interessem, e com certeza alguns
interessam à mim.
-
E como faço para consegui-los?
-
Isto é um papo para outra oportunidade. Pode ser no lanche que você me pagará,
futuramente, para recompensar as informações que estou lhe passando.
-
Não tenho o costume de me prostituir por palavras cruzadas de uma biblioteca
velha.
-
Quero apenas um lanche. MP, você é uma anomalia da natureza. Anomalias me
interessam. Não quero transformá-lo em meu boneco pessoal.
-
Podemos ver isto.
-
E outra coisa. Quero também participar das suas reuniões de porão.
-
Como sabe sobre elas?
-
É mais fácil encontrá-lo naquele lugar do que em sua casa. Qualquer bom observador
já teria notado que você se reúne ali com seus amigos. Eu só não sei, ainda, o
porque - enfatizou o "ainda", certa da vitória que viria.
-
E estes livros, acha que podem ser usados para uma mudança, ou qualquer coisa
assim?
-
Eu não faço ideia do que eles contém, mas sei que são o grande segredo da
cidade.
-
Afinal de contas, como você sabe deles?
-
Mais um papo para o nosso lanche. Espero notícias suas, estou sempre por aqui.
Ela
virou-se e foi embora, deixando para trás o olhar atento de MP. Plugou os fones
em seus ouvidos pequenos e novamente começou a saltitar, agora cantando "I'm a TNT, i'm a dynamite". MP
sorriu um sorriso que a muito tempo não se via em seu rosto. Se Operiet pudesse
ver aquela expressão enlouqueceria, fascinado pelo que a garota estava fazendo
com MP, sem que ele a conhecesse.
Em
seus pensamentos MP analisava toda a conversa. Ia e voltava varias vezes, dando
pequenas risadas ao lembrar de coisas que a garota falou. Em determinado
momento foi interrompido por um ônibus que parou e abriu as portas, esperando
sua reação para saber se deveria seguir ou esperar. Ele se levantou e adentrou
nele, que partiu em seguida. O ponto de ônibus se encontrava à algumas quadras
da casa de Scire, onde MP estava há algum tempo. Agora tinha como destino sua
casa, onde se prenderia por mais algumas horas no que havia acontecido naquela
tarde.
Matheus Henrique
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