quinta-feira, 14 de junho de 2012

FESTA JUNINA

Como toda escola, ao menos das que se prestem, a que o indivíduo que escreve esse texto estuda também faz festas de quadrilha para os seus alunos no período de Junho, note que a raça humana desenvolveu um estranho gosto por dançar, cantar e ter contato humano. Logicamente, assim como em tudo feito por eles, uma festa escolar não pode deixar de ter dança, música e um estridente contato carnal que enfatiza em pessoas como eu o quanto descivilizado o mundo está se tornando e ressalta o fato de não ter uma namorada. Para dançar antes é necessário um prévio ensaio, não para que saia tudo perfeito, mas que pelo menos não ocorram grandes problemas. A dança consiste em casais, sim, um homem e uma mulher. O mais interessante é que os ensaios ocorrem em horário de aula e não são didáticos, pelo contrário, são extremamente contrariantes para um físico, geólogo, metrologista...

Vejamos como se dá o roteiro da dança. Tudo começa com a voz indecifrável (levei uns cinco ensaios para entender o que é dito) de um homem que diz, na linguagem mais caipira nunca antes vista:
- Vai começar o inírcio da comerçação do comerço do procedimento da procedência da quadria, damas e cavaieros nos seus lugar... é cinco, três, um...

Anulando qualquer preconceito linguístico, pois a variação regional da língua é aceitável e natural, mas por mais que os cientistas queiram, a constante matemática é simples e a ordem decrescente dos naturais em momento algum pula do cinco para o três!

Continuando: os casais entram na dança, a música começa a tocar, por um momento me parece ser um forró eletrônico, digamos que seja. É formado um círculo de raio tão duvidoso que o número pi seria irrelevante para o cálculo da sua área. Os indivíduos que ali estão começam a girar, dançar e fingir dançar de acordo com as regras ditadas em uma língua desconhecida. Ocorre então o cumprimento de damas e de cavalheiros. Eles giram, andam e trocam de par. Ocorre então que o seguinte comando é dado: passeio na cidade, logo começam a coreografia correspondente, mas para o desgosto de Einstein, instantaneamente eles começam a obedecer a regra de passear na roça. Como? Os corpos alteraram a sua posição de modo instantâneo, saíram da cidade para o roça, a física não explica isso. Seriam pedaços de anti-matéria? Buracos Negros? Neutrinos?

Eis então que "começa a chover", ou melhor é dada a ordem de que todos devem acreditar fielmente que está chovendo sem que uma gota de água caia do céu ou de uma mangueira, ou quiça a umidade seja alta, como parte da coreografia eles tentam levantar as mãos para simbolizar um guarda-chuva. Ouve-se então que na verdade a chuva era uma mentira ou até quem sabe que já acabara de chover, vem a mim um questionamento: É possível enganar pessoas sobre a existência de uma chuva, ou pior, que uma chuva acabe em menos de um segundo?

O forro eletrônico se torna mais caipira, e os casais começam a dançar em extremo contato carnal. Até que por um lapso de segundo aquela música, ou melhor, som começa a tocar. Eu quero tchu, eu quero tcha... (sinta nesse momento toda a minha alma se revirar internamente dentro do meu corpo), a dança e a coreografia correm como o som manda. Voltamos ao forro, damas voam contrariando a gravidade, pessoas rebolam, gritam, dançam e a maioria continua fingindo estar lá. Depois do sertanejo, eletrônica e forró vem o suave e áspero som de uma valsa. Um indivíduo normal questionaria a razão da multiplicidade de sons no local.

O mais interessante é que as pessoas parecem inteiramente felizes e de bem com a vida, sem notar que foram cúmplices na negação da ciência. Nada contra esses indivíduos, bem que eu queria poder me satisfazer com tão pouco, ou transformar o pouco em muito. Só penso que a catarse grega e o pão e circo romanos continuam valendo até os dias atuais e que algo me diz que não estamos no caminho que Sócrates gostaria que estivéssemos.

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