terça-feira, 26 de junho de 2012

A MORTE

Luis Fernando Veríssimo dizia que a morte era uma piada por si só, não discordo do nosso querido escritor, mas gostaria de dizer que a morte é ironia pura, ela começa irônica e termina terminando. Quando morremos para a ciência seremos apenas decompostos e voltaremos ao ciclo da matéria, já para a espiritualidade religiosa vamos para outros corpos ou quem sabe acertar nossas contas dos prazeres e erros vividos em terra.

Quando estamos mortos, culturalmente, ficamos um tempo pra nos despedir dos amigos, familiares e outros – o mais legal é que nem estamos vivos para dar as honras aos colegas e amigos. O corpo do morto, não importa se foi morto com cinco tiros por um bandido traidor ou se simplesmente tropeçou em uma pedra, o corpo estará frio, pálido, morto (pleonasmo enfático necessário) e todos ao seu redor, observando a sua morte, observando todo o sadismo da vida, seus inimigos passando por perto e te mandando pro inferno, felizes da vida por te verem naquela situação.

A morte é como a separação, uma conseqüência de apenas um fator, a vida ou o relacionamento. Pela morte nos tornamos humanos, pela morte nos tornamos iguais, pela morte exaltamos toda a nossa vida, é a morte que completa a vida, ela é o grande final do jogo, não importa se você estava no princípio ou já estava nas prorrogações. Morrer é zerar a vida.

Para se despedirem do seu ente querido – ou não – ocorre uma cerimônia, que ao menos na cultura ocidental se chama velório. Velórios são representações fieis da sociedade, pessoas tentando se mostrar mais ricas medindo seus status com as coroas de flores ou até com o local do velório, interesseiros consolando os herdeiros, gente nunca antes vista chorando rios de lágrimas a procura de rios de dinheiro. Pessoas com mensagens hipócritas e até consolos falsos.

Se eu pudesse escolher a minha morte gostaria de não ser velado, ser enterrado em um caixão fechado e dormir para sempre sem ter que me lembrar da conta que tinha que pagar, sem ter que sonhar e ver a longitude do sonho, sem ter que sofrer, sem ter que me desculpar de ninguém e ai sim rir, mesmo que em sono, de toda a sociedade. E nas linhas de mármore do meu epitáfio, em letras místicas e sombrias com tom de ironia, estará escrito: “Pois é, morri, mas não mais preciso ver gente feia”. A morte é um momento de alegria, ao menos para o morto. Concordo, portanto com os velórios em que temos pipoca, café, palhaço, música, dança e claro: um cadáver feliz.

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