domingo, 17 de junho de 2012

O CRIME

Era uma manhã branca, de orvalho frio escorrendo na janela, os relógios batiam cinco e quarenta. Eles viviam em uma casa pequena: apenas dois quartos, um quintal, um banheiro, cozinha e uma sala para todos os oito moradores. Eram duas famílias, constituídas por irmãos; quando seus pais faleceram, ambos herdaram a casa, como não queriam vender ou comprar um do outro, manhosos, eles resolveram morar por lá mesmo, trouxeram as patroas e as crianças e dividiram a casa.

Estavam todos acordando, o caçula do filho mais velho foi para o quintal pegar chá para sua irmã. Ouve-se um grito pela casa, vinha do quintal, todos vão até lá. A figura de uma mulher ensangüentada, com o pulso praticamente dilacerado, os olhos fora do globo ocular, no peito mais de quinze ferimentos aparentemente feitos por um machado, o rosto (exceto o olho) estava totalmente preservado, todo o sangue que um dia foi bombeado pelo coração dela estava agora penetrando a terra enquanto ia se esfriando. Era uma mulher de feições gentis, corpo médio, cabelos ruivos, e pelo menos o olho que restava era castanho.

Quem cometera aquele crime queria garantir um velório patético, queria garantir que a última imagem da mulher fosse de um corpo incrivelmente sádico. Muitos homens diriam ser um crime cometido por amor. Mas, levando essa consideração como uma verdade, quem teria feito isso¿

Passada a histeria e o horror do momento, a família devia informar a morte da desconhecida, ligaram para a polícia, na cidade pequena todos já sabiam do ocorrido, as praças comentavam, aumentavam e especulavam o crime.

Dez minutos após a ligação, chega o delegado da cidade, com sua cara de “eu escolhi trabalhar em uma cidade pequena pra me aposentar sem problemas, e agora, uma semana antes das minhas merecidas férias eternas essa mulher resolve aparecer morta”. O delegado já estava decido a prender qualquer um da cidade, logo, chama todos da casa para um interrogatório – e isso inclui o filho de três anos de idade do irmão mais velho.

Os peritos isolam a casa e começam a análise do local, encontram uma colher, um dente de leite, um prova de história sobre a pré-história na qual o indivíduo tinha tirado menos de quarenta por cento, encontram marcas de sapato tamanho 42 e no corpo da mulher uma identidade que dizia seu nome ser Maria Carmelita da Penha Souza e Cruz, nascida em 1967.

Ao ser informado o delegado procurou saber quem era a mulher enquanto seus oficiais batiam de casa em casa e prendiam todos com sapatos tamanho 42 – os oficiais odiaram o serviço, um deles quase caiu no chão ao cheirar um dos sapatos. Foram recolhidos catorze homens e o delegado descobriu que a mulher era na verdade representante de uma marca de sapatos.

Informaram a família da mulher sobre a fatalidade, aparentemente ela tinha um casamento sólido e duas crianças. Em casa seu marido estava desolado, fora chorar no seu quarto e encontrou na velha cômoda, junto com os recados de amor de quando eram um casal adolescente uma carta escrita nas letras redondas e espaçadas que ele reconhecia pertencer a sua mulher. Seguiam nas linhas os seguintes dizeres:

“Aqui estou eu, parada, imóvel, com dois pesos nas mãos: vida e morte. Viver¿ Não vejo porque, não tenho razão para tal, me tornei uma máquina, tudo o que faço é mecânico. Minha ilusão de compreender o mundo e as pessoas agora se tornou verdade , não gosto do que vejo, sou escrava de minha mente, estou trancada dentro de mim mesmo, não há de haver chave, se não o amor.

Amor¿ o que é esse senhor¿ o que ele tanto significa¿ como saber de ele existe¿ Deixem de brincadeira; o amor não é nada se não a junção de hormônios e de personalidades, sentimentos não passam de impulsos elétricos que correm num cérebro. Mas, então, como uma mente pode compreender isso¿ Para fazê-lo é preciso voltar para si mesma e ao fazer isso perder seu misticismo e seu ego, a verdade é dura e a única forma de alívio é a morte. Já se passaram anos desde que entrei nesse lugar, sem saber o motivo, sem opção de escolha, sem outras oportunidades: foi-me negado o direito de não nascer ou o simples direito de morrer me é negado pela sociedade atual.

Não sou capaz de ver que falta eu faria, não sou nada de especial para os não familiares. Nesse mundo não sei o porquê de mesmo sabendo o mal que isso causa ainda continuarmos sendo hipócritas. Não criei laços válidos – somente com os que foram obrigados a viver comigo – não fiz amigos de verdade, não despertei o sorriso de um homem ou a lágrima de uma mulher. Não sou uma carta qualquer nesse baralho, apenas aquela que nunca sai.

O grande mal de vocês é não querer ajudar o diferente, é não se importar com o seu semelhante, é viver como se nada de ruim ou desumano acontecesse no mundo. Nenhum dos que conheci teve a coragem de orar por um mendigo qualquer ou de simplesmente pensar antes de gritar (em uma crise egoísta) nas crianças que nesse exato momento morrem de fome na África ou embaixo dos seus próprios narizes.

Querem pessoas perfeitas sem se tocar que antes disso vocês devem ser o máximo “perfeitos” possível. Quando encontram pessoas dispostas a mudar, se aproveitam disso e realizam profundas mudanças nelas – mas pra pior. Vocês estão iludidos, pensam que tem a superioridade em relação aos outros animais: enganam-se! As formigas são mais unidas em grandes esferas do que vocês em um casamento.

Poder¿ É uma ilusão, engana gente grande que acha que não pode perder. Espero que algum dia vocês aprendam a formar pessoas e não monstros, a formar críticos e não marionetes, aprendam que tudo é válido pelo sorriso de um homem, aprendam a lidar com as diferenças e a se aproveitarem delas, aprendam a lutar no mesmo sentido e que provem para si mesmos que na vida só basta uma coisa: amar. E que a única coisa tão inevitável quanto à morte é a vida e que na vida os laços são o mais importante. Vivam para morrerem bem consigo mesmos. Lembre-se que de todas as coisas o tempo é a única que nunca voltará de maneira alguma, ele é uma ilusão muito bem feita da natureza, feroz ao ponto de encararmos como uma verdade. Acordem! A vida segue nem que seja por cima do seu cadáver.

Não imagino o que seriam capazes de fazer com um homem que só quer o bem: Não foram vocês que pregaram seu próprio deus em dois pedaços de madeira só por que ele disse para serem mais legais entre si¿

A morte é acordar do sonho da vida, não tenho medo dela, apenas admiração. Morrerei e serei decomposta, os elétrons que agora me fazem pensar um dia voltarão a iluminar uma estrela e que nesse dia eu possa sentir orgulho da espécie de onde sai. Não saio por ser fraca ou desconhecer esse mundo. Vou por ser forte o bastante para negar o meu ego e alertar vocês para que outros não tenham o mesmo fim.

Querem uma dica¿ Acho que não devo dar a dica, vocês vão simplesmente ignorar – não é isso que fazem com as verdades¿ - mas, quem sabe um de vós seja inteligente e humilde ao ponto de ouvir-me nesse momento: antes de dizer algo a alguém pondere a sua fala e certifique-se da verdade. E antes de negar o amor tenha aprendido a amar assim como dizem que deus vos ama.

Deixo a vida para dar lugar a outros como eu; que do meu corpo nasça a erva e que da erva um homem se alimente e assim sucessivamente até que todos estejam mortos e assim iguais perante a realidade surreal em que vivemos.”


Ele não podia entender isso, sua mulher, sempre tão segura, humana, sentimental, como pudera querer se matar¿ E como fizeras isso¿ Como podia ter negado o amor da sua família, o que passava na mente dela¿ Em um minuto ele se via em uma trama psicopata, muito mais real e tenebrosa que a dos filmes que assistira.

Lembrou-se de como ela era, muito mais que uma garota linda, era também um gênio, vivia a filosofar sobre a sua condição, ele sempre pedindo para que ela parasse, dizendo que ela ficaria louca. Em todo problema ela tinha a solução, toda briga ela resolvia, toda insanidade ela sanava. Ela uma garota de poucas, mas sábias palavras, ele era um garoto que só queria curtir a vida, não pensava no futuro, saia com todas as garotas, mas fora preso pela inteligência e desconhecimento de como era aquela garota. Levou anos para conquistá-la, ela se negava a acreditar no amor dele. Ela era uma alma livre. Recordou a história do primeiro beijo que deu nela: Era uma sexta-feira, tinham quinze anos, ela estava isolada na sua mesa, pensativa, quase que chorando, lia os versos melancólicos de Shakespeare. Ele chegou perto dela, sentou-se com ela, perguntou o que estava acontecendo, ela se negara a responder, sempre queria ser forte, no azar e na sorte, ele não aceitava vê-la chorando, insistiu até o fim, até ouvir a razão, ela chorava a falta de um amor, ele arrancou o livro das suas mãos, era um exemplar de Sonhos de uma Noite de Verão, abriu o livro, e lera em meados as páginas palavras que despertavam a alma de qualquer leitor, ele entendeu onde estava a alma da garota. Segurou as suas mãos, ela estava estupefeita com a ação do garoto, ele tentava transmitir com apenas um olhar toda a segurança e confiança que pudesse, queria falar que embora fosse apenas um jovem, sabia, por algum modo que ela era a mulher da sua vida. Em um lapso incompreensível de tempo, sem que mais palavras fossem ditas, ou mais olhares transmitidos, o sentimento já havia dominado o ser, eles se beijaram, sem razão, sem lógica, sem condição, apenas se beijaram. Pensava ele que esse seria o apenas mais significativo da história, era sim apenas, apenas amor, apenas tudo.

Chorava ele com as suas recordações. Memórias que nunca seriam esquecidas. Ele sempre tentou mudar as idéias dela, mas ela sempre continuou sentindo que algo faltava nela, ela queria por todo modo a resposta para a vida, ela queria sentido para viver, mas ele tinha encontrado esse sentido nela. Agora ela estava morta, ele estava sem razão para viver, eram um casal trágico, eram tudo que ela lia, um não podia ser pleno enquanto o outro vivia a plenitude, eram necessários sacrifícios.

Nessa mesma noite o delegado foi visitá-los, o homem impaciente queria saber mais sobre a vida dela, o marido entregou-o a carta, após ler o delegado não pode entender – e não queria entender. Apenas procurou pelo homem que ela pagou para ser seu assassino, prendeu-o e deu como solucionado o crime. Mas não, a grandiosidade do amor ou a ferocidade da verdade não podiam ser resolvidas com uma simples prisão. Ela tinha escolhido ser deformada, ela tinha escolhido morrer, ela tinha negado a tudo e a todos, ela estava certa de tudo, mas ela não o fez por perto, ela não queria que seus filhos se tornassem como ela. É inevitável a fatalidade de uma mente maior que o coração, homens foram feitos pelo extinto, não devemos negar nossas origens, devemos amar e depois pensar, devemos ser sonhadores, devemos viver a vida com intensidade, devemos perguntar as respostas apenas quando essas não forem a nossa única preocupação.

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